sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Bigode – uma história de amor.

Ela olhou para o relógio parado da torre da Câmara Municipal e calou-se.
Ele seguiu-lhe o olhar, percebeu que qualquer coisa estava diferente sem perceber o quê e olhou para o seu relógio de pulso. O relógio na torre continuava parado.
– Tem luz – disse ela. Ele olhou para ela sem perceber. Sem expressão, ela acrescentou: – O relógio da Câmara tem luz.
– Não tinha?
– Não.
– Mas continua parado – disse ele, constatando o óbvio como se fosse uma descoberta.
Ela pendeu a cabeça para o ombro direito, que levantou ligeiramente, e anuiu com a cabeça.
Olharam um para o outro: ela sem perceber o que vira nele; ele sem perceber… ele sem perceber… ele sem perceber nada.
– Não é o sexo – deixou ela escapar, sorrindo quando se ouviu.
– O quê? – As sobrancelhas dele acompanharam a pergunta, sinalizando o desconforto.
Ela sorria e estranhava o sorriso. Não era um sorriso envergonhado ou embaraçado, era um sorriso natural, um sorriso satisfeito com a certeza do facto. “Não é o sexo”, repetiu, agora para si. Olhou para ele: “Não é beleza”. Abriu o sorriso: “Nem o bom gosto”.
– Se tivesses um chapéu e pusesses a mão na lapela do casaco…
– Eu não tenho casaco – interrompeu ele, aborrecido.
– Se tivesses um chapéu e um casaco – recomeçou ela, ainda a sorrir, depois de juntar a paciência e o sentido do humor às razões que não justificavam o facto de estar com ele. – Se tivesses um chapéu e um casaco e pusesses a mão na lapela do casaco, parecias o Marcelino Mesquita.
Ele olhou para a estátua e imitou-lhe a postura e o estilo com garbo teatral.
– Falta-me o bigode – declarou em tom afectado.
Ela riu-se e decidiu não lhe dizer que parecia o Marcelino Mesquita porque era oco. “Tão oco como estátua do homem”.
– E o sexo? – Perguntou ele, sem alterar a rigidez de estátua que assumira.
– Não deve ser nada bom – respondeu ela com uma gargalhada. – Não me parece que lhe consigas tirar as calças.
Ele fez uma careta e depois um esgar com que procurava imitar um sorriso.
Ela riu-se ainda mais.
– Tu é que falaste no sexo - reclamou ele e repetiu-lhe a frase: – Não é o sexo.
Ela abanou a cabeça na horizontal e parou de rir.
– Não é o sexo – suspirou –, nem sei o que possa ser.
– Estás a falar de quê?
– De ti, parvo – Ela olhou-o furiosa. – De nós!
Ele engoliu em seco e pensou, sem saber porquê – e pensou nisso –, que se tivesse um bigode o estaria a cofiar com ar superior e enrolar-lhe a ponta enquanto diria… “Enquanto diria…”
– Não dizes nada? – Atirou-lhe ela, calando a asneira que lhe entupia a garganta com um “F”do tamanho do mundo.
– Não tenho bigode – lamentou-se ele.
Ela ouviu, olhou para ele, confirmando a falta de pelos abaixo do nariz, e sentiu o impacto da verdade como se lhe batesse uma porta na cara.
– Isso explica tudo – murmurou. – Isso explica tudo...

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A Varanda

Nuno irritou-se com o permanente silêncio de Rita e perguntou-lhe irritado:
– O que é que achas? Porque é que não dizes nada?
Sem responder, sem sequer pensar nas perguntas, Rita, que estava farta de o ouvir e só queria que a conversa acabasse, olhou para Nuno e levantou-se do sofá. Ele ficou a olhar para ela. Sempre calada, Rita começou lentamente a andar, passou por ele, que estava em pé no meio da sala, e encaminhou-se para a porta da rua, que abriu. Agarrada à maçaneta, olhou-o fixamente, tentando manter-se sem outra expressão para além da que lhe ordenava que saísse.
Imóvel no meio da sala, Nuno olhava-a espantado, sem qualquer reacção.
Rita olhou para o longo corredor escuro que dava acesso ao elevador e aos restantes apartamentos naquele piso e, movendo lentamente a cabeça, voltou a olhar para ele.
– O que é isso? – Perguntou Nuno, sem se mover.
– Uma porta…
– Aberta – acrescentou ele, sem se conter na estranha necessidade que tinha de a corrigir sempre que podia.
– Exactamente: uma porta aberta.
– Queres que me vá embora?
Rita ergueu as sobrancelhas e perguntou:
– O que é que te parece?
– Assim?!
Rita baixou ostensivamente os olhos até aos sapatos dele e subiu lentamente até os olhos de ambos se tornarem a encontrar.
– Se foi assim que vieste, qual é a dúvida?
– Não estava a falar da roupa – disse Nuno, incomodado tanto com a frieza e rigidez dela junto à porta, como por esta estar aberta e alguém poder estar a ouvi-los.
Rita manteve-se calada.
– Queres que me vá embora? – repetiu ele, ainda sem se mexer.
Rita acenou positivamente com a cabeça.
– Porquê? – inquiriu ele, iniciando uma lenta caminhada até ela.
– Porque não?
Nuno parou em frente de Rita e, depois de a olhar em silêncio com ar interrogativo sem receber qualquer sinal em resposta, reforçou:
– É isso que queres?
– É.
Nuno estendeu a cara na direcção de Rita, apontando a sua boca à boca dela. Rita hesitou mas acabou por não dar o passo atrás, como o primeiro impulso quase a levara a fazer, mas virou a cara, dando a face para ser beijada.
Nuno beijou-a contrariado e suspirou ruidosamente.
– Eu depois ligo-te – disse, saindo para o corredor.
– Escusas de ligar – informou Rita, lacónica. – Com licença – pediu, antes de fechar a porta com suavidade ante a incomodada perplexidade dele.
Rita deixou-se ficar encostada à porta e ouviu os passos no corredor a afastarem-se lentamente; percebeu duas paragens e que, na segunda, os passos inverteram de direcção mas que, de repente, se tornaram a afastar com maior rapidez. Ainda ouviu a porta do elevador fechar-se e só depois se desencostou da porta, voltando-se para a sala, que encarou com um sorriso triste.
“E agora?”, pensou e, percebendo a pergunta que se fizera, sorriu já sem tristeza, achando graça a que no fim de uma tomada de posição tão drástica e, provavelmente, sem retorno, a primeira coisa que conscientemente pensasse fosse exactamente “E agora?” como se tivesse queimado o jantar e fosse imperioso arranjar uma solução imediata. Suspirou, “Que estupidez”, sem fechar o sorriso.
Rita, enquanto olhava em volta à procura do maço de tabaco, apercebeu-se e apreciou o silêncio da sala vazia. Viu o maço caído ao lado do sofá, foi buscá-lo e foi para a varanda sentindo-se estranhamente satisfeita, absurdamente limpa e leve. Ouviu o telemóvel tocar mas decidiu não atender e nem sequer ver quem era. Encostou a porta da varanda, sentou-se na cadeira de plástico e fumou olhando as janelas do prédio em frente.
“Quantas pessoas estarão agora a fazer amor? Quantas estarão a discutir? Quantas estarão a vegetar em frente ao televisor?”, conjecturou contemplando demoradamente os apartamentos que entrevia através das janelas. “Estou a ficar velha”, acendeu outro cigarro, “ou, se calhar, mais esperta”, olhou para o relógio com satisfação e decidiu sair, ir às compras, ver montras, ver pessoas e caminhar. “Quantas pessoas estarão na varanda a fumar e a pensar no que estarão as pessoas dos outros apartamentos a fazer?”
Apagou o cigarro, ainda a meio, e reentrou em casa. O telemóvel tocava. Respirou fundo e, contrariada, dirigiu-se, de sobrolho franzido, ao braço do sofá, onde o tinha abandonado. Olhou para o ecrã e viu a imagem do Nuno em calções de banho na praia a sorrir-lhe com os dentes todos e com a mão esticada, a palma virada para cima, os dedos dobrados e o indicador só meio dobrado, chamando-a. “Nestas situações, quando é que se mudam as fotografias dos telemóveis?”, reflectiu quando pensou que aquele era o homem a quem acabara de pôr na rua. “Não me parece bem ter um homem meio nu a aparecer-me no telemóvel se não tenho nada com ele, ainda por cima se ele me está a chamar e eu fui…” Riu-se para dentro. Engoliu em seco e atendeu.
– O que foi?! – disparou.
Nuno hesitou – as hesitações dele enfureciam-na mais do que a sua mania de procurar os significados de tudo e apresentar as suas intermináveis conclusões em discursos longos e chatos para os quais exigia a sua completa atenção e, de preferência, concordância –, hesitou e começou três frases, que ela não percebeu e, por fim, pediu:
– Desculpa.
– Porquê? – perguntou Rita, furiosa. Desculpas era a última coisa que lhe queria ouvir. – Porquê, por seres quem és?!
– O quê?
– Está a pedir-me desculpa, porquê? – insistiu Rita com maus modos. – Partiste alguma coisa, foi?
Surpreendido, ele não respondeu.
– Partiste alguma coisa?! – repetiu ela.
– Não – disse ele.
– Fizeste chichi no elevador quando foste para baixo? – perguntou ela.
Ficaram ambos estupefactos quando ouviram a pergunta mas só ele verbalizou a surpresa:
– O quê?!
Ela, ainda espantada com o que perguntara, imaginou-o de olhos esbugalhados e olhar perdido, boca aberta e sobrancelhas em meia-lua quase a tocarem a franja e abafou um risinho de gozo. Gostara da frase, ainda que não soubesse porque a dissera.
– Estás pedir desculpa, porquê? – Rita retomou a conversa antes do chichi no elevador mas, agora, só o imaginava a parar o elevador, a abrir a braguilha e a urinar furtivamente com um sorriso maníaco e malévolo.
– Porquê? – repetiu ele.
– Sim, estás a pedir desculpa porquê?
Nuno sentiu o porquê como um monte de entulho impossível de ultrapassar sem se magoar, sem se sujar, sem se comprometer. Na verdade, ele por mais que se esforçasse, e estava a esforçar-se muito, não sabia porque tinha pedido desculpa, ou melhor, sabia, mas não o podia dizer. Não pedira desculpa por nada, julgara apenas que fosse uma boa forma de iniciar a conversa. Normalmente resultava mas hoje não.
– Porque é que eu havia de fazer chichi no elevador? – Nuno decidiu voltar à pergunta estranha que ela lhe fizera.
– Sei lá. – Rita não conteve uma gargalhada. – Podias ter vontade.
– E achas que ia mijar – ambos estranharam que ele usasse esta palavra – no elevador?
– Podia ser uma afirmação!
– Uma afirmação em forma de urina no elevador…
– No meu elevador.
– Urinar no teu elevador era uma afirmação?
Sem perceber como, Rita viu a sua imagem reflectida no espelho do quarto. “Ou melhor, sem perceber como cheguei aqui.” Sorria e os olhos brilhavam-lhe.
– Urinar, não, mijar, sim – declarou ela, com convicção. – Mijares no meu elevador podia ser uma afirmação, pouco higiénica e muito bizarra, mas uma afirmação. Dava a ideia que te tinhas descontrolado, que tinhas sido realmente afectado pela nossa discussão… Que tinhas sido abalado por eu te pôr na rua – corrigiu.
– Estou a ligar-te, não estou?
– E depois? – A imagem do espelho tinha perdido o sorriso e os olhos já não brilhavam. – Mijaste no elevador?
– Não.
– Então, estás a ligar-me para quê?!... É que ainda não me disseste nada. – O tom endureceu e ela afastou-se do espelho quando se apercebeu da ruga vincada que lhe dividia a testa. Tornou a olhar para os prédios em frente. “Quantas pessoas estarão a fazer amor neste momento?” – Há quanto tempo não fazemos amor, Nuno? – perguntou de chofre.
– Hã…Há…
– Não digas – interrompeu ela, arrependida de ter feito a pergunta –, não interessa. Não interessa nada – concluiu em voz sumida.
– Fizemos ontem – disse ele em tom informativo, neutro. “No mesmo tom com que fizemos amor.” Nuno foi abalado por este pensamento e calou-se, evitando o risco de descobrir mais qualquer coisa se continuasse a falar.
Ela voltara a pegar no maço de tabaco e regressara, ainda com o telemóvel junto ao ouvido, à varanda. Inconscientemente procurou descobrir o automóvel dele e viu-o, encostado ao carro, de cabeça baixa, olhando para o telemóvel pousado em cima do tejadilho.
– Está? – disse Rita para perceber se ele ainda a estava a ouvir.
– Sim, estou – ouviu-o dizer entre os barulhos da rua. Tinha o telemóvel no altifalante. – Abres-me a porta?
– Para quê? – ouviu-se perguntar em tom genuinamente curioso.
– Posso subir?
– Subir?
– Sim, posso ir aí?
Ela viu-o levantar os olhos para a varanda e levar o telemóvel até ao ouvido. Hesitou. Olhou as janelas do prédio em frente e apagou o cigarro, onde dera apenas duas passas, informando-o, lacónica:
– A porta está aberta.
Viu-o descolar-se do carro e foi abrir o trinco da porta do prédio e a porta de casa, que deixou encostada. Olhou para o sofá mas decidiu retornar à varanda, onde se sentou de costas para a sala observando as janelas do prédio em frente.
– Ainda estás aí? – Perguntou Rita para o telemóvel.
– Estou.
– Não faças chichi no elevador – disse Rita, rindo.
– Agora não – Nuno riu. – Onde é que estás?
– Na varanda.
– Vou fazer aí!
– Só se for para o balde.
– Que seja. O que conta é a afirmação!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

"Too cut a long story short"

A mulher acabou de falar e sorriu com orgulho. Perplexo, o homem olhou em volta para confirmar que o mundo se mantinha tal como o conhecia. A mulher esperou sempre com um largo sorriso declarativo, a que ele voltou sem vontade, e, então, acenou-lhe com a cabeça sinalizando que o homem, além de engolir a sua pretensiosa sapiência, devia prestar-lhe pública devoção. O homem cerrou os lábios, contendo-se, e tornou a olhar para lá do sorriso dela, que exibia agora laivos de troça porque o homem não lhe respondia. A expressão dela era a imagem da vitória. O homem suspirou ainda com os lábios fechados e, depois, perguntou-lhe se ela tinha a certeza do que estava a dizer. “Absoluta”, cortou a mulher que, olhando-o desafiadora, arremessou em tom sarcástico: “Tens dúvidas?”

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Câmara 2

O Dr. Carreira calou-se, fixou a Dra. Judite com os olhos muito abertos e, subitamente como se explodisse, soltou uma ruidosa gargalhada trocista acompanhada de fortes palmadas na mesa.
A Dra. Judite semicerrou os olhos, cerrou os dentes e os punhos com a mesma força furiosa e lançou um profundo olhar de desprezo e raiva ao velho que, entretanto, abafara mais gargalhadas mas que a olhava abanando a cabeça para a direita e para esquerda mantendo um sorriso de condescendência e censura.
Na régie não havia reacção e o plano aberto que apanhava ambos os interlocutores dava à cena um ar de filme italiano dos anos setenta. O realizador pensou nisso e sorriu: “Era só dar uma paralisia facial ridícula ao velho sabe-tudo, um penteado psicadélico à doutora e um miúdo ranhoso, sujo e desgrenhado a fazer macacadas e a rir-se atrás dele…” Os técnicos esperavam ordens sem tirar os olhos dos ecrãs e o realizador sonhava com o resto da cena: “E acabava-se com o velho a tombar sobre a mesa com uma apoplexia e a doutora a gritar histérica que o amava e pôr-lhe a cabeça entre as mamas para o reanimar e o miúdo a espreitar debaixo da mini-saia para lhe ver as cuecas…”
A Dra. Judite recompôs-se e olhou para a câmara 2. O realizador acordou e berrou ordenando o grande plano na senhora. A doutora esboçou um sorriso ofendido que acompanhou com caretas e gestos de enfado e descredibilização que dirigia ao Dr. Carreira e despediu-se: “Boa noite. Para a semana eu volto, o velho seboso e gagá não.” O realizador berrou para abrirem o plano. A Dra. Judite apercebeu-se e, sorrindo com irónica amabilidade, esticou o braço direito por cima da mesa na direcção do Dr. Carreira e mostrou-lhe o dedo médio erguido, firme e hirto como uma barra de ferro.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Confissões: (i) Falar para o boneco

“Sinto-me sempre só, Henrique. Sinto-me sempre só. Mesmo agora: estamos aqui mas parece que não me vês, que nem me estás a ouvir. E isso dói. Custa-me muito… Passas por mim como se eu não existisse. Falas-me como se falasses com outra pessoa qualquer. Não me fazes sentir especial, sabes? É isso que sinto... Parece-me... A verdade é que não me sinto especial… Não me fazes sentir especial. Mas gostava, Henrique, gostava que me fizesses sentir especial. E era fácil. Era simples. Bastava que me olhasses, que me visses, que falasses comigo de uma maneira especial que não usasses para mais ninguém... Sinto-me muito sozinha, sabes? Mesmo quando estamos juntos. Mesmo quando estamos a conversar ou a fazer qualquer coisa juntos parece que falta sempre qualquer coisa. Parece que falta sempre uma parte de ti... É o que eu sinto mas custa-me sentir assim, Henrique. Custa-me muito mas não o consigo evitar... Henrique. Henrique? Henrique?!”
– E ele estava a dormir. A dormir!... Eu a falar com ele, a abrir o coração, a tentar que as coisas melhorassem e ele a dormir no sofá... A dormir!... A dormir e a babar-se. Já devia ter um fio de baba que lhe chegava ao ombro, que ele tinha a cabeça para trás e ligeiramente para a direita… Mas isso agora não interessa nada. A verdade é que foi muito triste, senhor juiz, foi um choque: eu a abrir o coração e ele a dormir!... Eu venho à porta da cozinha, que dá para a sala, e vejo-o assim… a dormir, de boca aberta, com a cabeça para trás e o pescoço todo à mostra… Mas, no fundo, foi azar: é que se eu não estivesse a cortar uns bifes para congelar e se não tivesse aquela faca na mão, quanto muito tinha-lhe dado uma calduça e ele acordava e discutíamos… Mas não, tinha de ter a faca na mão e ele o pescoço para trás, todo à mostra como um galo para a cabidela, e eu tão cansada e tão farta de estar sozinha e de falar para o boneco e com a faca na mão...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Socialista Erecto

António José não se apercebeu mas a mulher olhava-o com malícia desde o princípio da conversa. Sorria-lhe e acenava com a cabeça como se o ouvisse com toda atenção mas tinha um brilho incandescente no olhar e um ligeiro arquear dos lábios que lhe denunciavam os estranhos pensamentos que a consumiam enquanto o ouvia.
– E o Hollande? – atirou de chofre a mulher, interrompendo-lhe a interminável ladainha sobre fazer melhor e fazer diferente.
António José engoliu em seco, levantou os olhos do prato da pescada cozida com batatas e olhou para a mulher. Ela mantinha o sorriso torcido, sensual. “Erótico”, reparou surpreendido António José.
– O Hollande? – repetiu António José, sem saber o que dizer, assustado por constatar que o sorriso “erótico” da mulher estava acompanhado por um estranho olhar. “Lúbrico”, foi o adjectivo que lhe ocorreu.
– Sim, o Hollande – confirmou a mulher –, esse grande socialista.
António José tornou a engolir em seco, agora com mais dificuldade como se tivesse um problema na garganta, e coçou o couro cabeludo por cima da orelha direita, tentando perceber se o “grande socialista” tinha, como lhe pareceu, uma conotação para além da política. Sem ter a certeza, não arriscou:
– O Hollande esbarrou com a realidade negra que o Sarkozy lhe deixou e teve que dar um passo atrás para poder vir a dar dois à frente – sugeriu António José, evasivo para não se comprometer.
A mulher desviou o olhar para a televisão como se tivesse ficado satisfeita.
António José deixou escapar um profundo suspiro de alívio, enquanto se censurava por se ter permitido admitir que a questão da mulher sobre Hollande encerrasse um segundo sentido, e levou meia batata cozida à boca.
A mulher esperou que ele mastigasse duas vezes a batata e perguntou-lhe em tom inocente:
– Continuas então a achar que o Hollande, apesar de tudo, é um socialista erecto?
António José teve um ataque de tosse e cuspiu a batata. A mulher olhava-o, deliciada mas mantendo uma expressão séria.
– Erecto?! Um socialista erecto?!
– Sim – confirmou a mulher, em tom formal. – Achas?
António José limpou a boca e o queixo com o guardanapo, constatando com vergonha que havia estilhaços de batata cozida, mastigada e cuspida por toda a mesa e, quando se sentiu preparado, respondeu no mesmo tom:
– Sim, acho que sim, o fervor socialista do Hollande não esmoreceu, certamente que continua de pé…
– Erecto… – aperfeiçoou a mulher.
– Sim, o homem continua erecto – anuiu António José, contrariado.
– Um socialista erecto. Um grande socialista erecto, esse Hollande.
– Parece que sim…
– Mas que tem de suspender por uns tempos o fervor…
– Socialista – completou António José.
– Socialista – concordou a mulher.
– Vais ver que é só uma fase… – Opinou António José. – Tudo isto é passageiro.
– Como ele na mota do segurança…
– Pois, mais ou menos isso.
– E tu?
– Eu?
– Sim, tu – disse a mulher, que voltou a sorrir-lhe e a olhá-lo como no início da conversa. – Como é que anda o teu fervor socialista, Tó-Zé? Erecto?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O Acessório

Ana, que o ouvia com atenção, deu uma gargalhada e, rindo, pousou a sua mão sobre a dele.
Bento, também a rir, foi surpreendido pelas duas mãos pousadas uma sobre a outra na toalha branca da mesa entre os pratos da sobremesa e, sem dar por isso, esqueceu-se de rir e ficou com ar pasmado e um sorriso satisfeito.
Ele não. Ele sentiu o calor da palma da mão dela nas costas da sua a espalhar-se por todo o corpo e a materializar-se num súbito nó na garganta mas fez uma cara ainda mais séria – gostava de dizer as coisas engraçadas com o ar mais sério do mundo – e quando olhou para Ana fê-lo com gravidade teatral que só o brilho dos olhos atraiçoava. Ana sorriu-lhe.
Bento olhou para Clara, que ainda ria sem ver nada, e, quando os olhares se cruzaram, piscou-lhe o olho e desviou os olhos para as mãos de Ana e Dinis uma sobre a outra. Clara seguiu-lhe o olhar e, feliz, sorriu para Ana que lhe retribuiu o sorriso. Dinis continuava sério, compenetrado, mas os seus olhos brilhavam e riam.
– Arranjem um quarto – gozou Bento, batendo com o cotovelo no braço esquerdo de Dinis. – Não percam mais tempo!
Dinis corou, Ana não, esmoreceu só o sorriso como se lhe ficasse bem ficar ligeiramente envergonhada.
– Oh Bento… – recriminou Clara, divertida com o ar tenso de Dinis.
– Vão-se embora – continuou Bento, com o mesmo tom galhofeiro. – Deixem lá isto que eu pago. – Bento abarcou a mesa com um gesto largo do braço e riu. Dinis, no meio da sua composta seriedade, percebeu que esperava com impaciência um sinal de Ana. – Vão-se embora – repetiu Bento, peremptório.
Ana olhou para Dinis, que olhava para ela como se estivesse prestes a ser fulminado por uma revelação. Ana ergueu as sobrancelhas e Dinis foi fulminado pela revelação que esperava e levantou-se como se a cadeira tivesse molas no assento. Ana, sem lhe largar a mão, abriu um sorriso radioso e levantou-se atrás dele. Despediram-se dos amigos em silêncio e com sorrisos comprometidos. Clara disse-lhes qualquer coisa mas eles não a ouviram e seguiram de mãos dadas para o átrio.
– Não te ouviram, Clara – disse Bento, trocista. – Eles já não ouvem nada.
Clara assentiu com a cabeça e encolheu os ombros.
– Deixá-los! – Clara abriu mais o sorriso que nunca a abandonava. – Com a leveza que ele ia, não precisa do andarilho para nada… Só os ia estorvar.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O Lençol

– Sempre te queria ver a escrever isto – disse ela, batendo a porta do quarto com estrondo e, passados uns segundos, fazendo o mesmo à porta do apartamento.
Ele inclinou-se para a frente para, sem saber porquê, ver a porta fechada do quarto. Engoliu em seco, voltou a encostar-se à cabeceira da cama e ficou a olhar para o quarto vazio. Suspirou e procurou o telemóvel, onde escreveu um sms: “Porquê, lias?”
“Não só lia como comentava, se me apetecesse”, respondeu ela passado uns segundos.
“Achas que valia a pena?”
“Abre a porta!”
Ele sentou-se na cama e tornou a olhar para a porta do quarto. Releu a mensagem e levantou-se e foi abrir a porta do apartamento, que deixou encostada.
“Vai-te deitar!”, escreveu-lhe ela.
Ele voltou para a cama. Tapou-se com o lençol e encostou-se à cabeceira. Ouviu a porta da rua fechar-se, os sapatos dela no chão da sala e deixou de a ouvir.
– Foi um erro – disse ela, junto à porta do quarto mas sem entrar. Ele não a via.
– O quê?
– Isto – disse ela.
– Voltares?
– Voltarmos.
– Porquê?
– Porque sim.
– Porque é que quiseste que eu abrisse a porta?
Ela deu dois passos e encostou-se ao roupeiro. Estava nua e sorria.
– Queria que fizesses alguma coisa para me teres…
– Vou-te ter?
– Vou-te ter outra vez – corrigiu ela, ácida, fechando o sorriso.
– Hã?!
– A pergunta que me devias fazer era… – Ela calou-se, cerrou os lábios com força e abanou a cabeça na horizontal. – Não me devias fazer pergunta nenhuma… Não era preciso pergunta nenhuma!
Ele respirou fundo como se o ar o pudesse inspirar.
– Sabes do que é que nunca gostei em ti? – lançou ela, sem esperar que a inspiração lhe subisse dos pulmões ao cérebro.
Ele pensou em várias coisas que, num ápice, se acumularam em muitas coisas e, numa súbita e incómoda surpresa, se transformaram numa imensidão de possibilidades. Espantado com a facilidade e rapidez com as identificara e com a certeza com que as acumulava, engoliu em seco e pensou se essas eram coisas de que ela podia não gostar nele ou que ele não gostava em si próprio. Na dúvida, fixou-se nela para não pensar em mais nada.
Ela, que o conhecia, permaneceu calada com um sorriso que não lhe mostrou, deixando-o torturar-se.
– Assim, de repente, não estou a ver nada – mentiu ele, num murmúrio.
Ela sorriu, um sorriso benigno, conformado. Um sorriso de quem já sabia a resposta. E pensou que essa era outra das coisas que nunca gostara nele: a previsibilidade.
– Das perguntinhas de merda que tens a mania de fazer – declarou ela, de chofre como se temesse esquecer-se do que estavam a falar. Desencostou-se da esquina do móvel mas não andou e ficou parada a olhar para ele. – Se eu voltei, se estou aqui. Se… – Olhou para si, nua, passou a mão direita pelo cabelo e continuou: – Se deixei a roupa na sala, se te peço para abrires uma porta de que tenho a chave, se entro e te falo, se volto para te dizer que foi um erro, se regresso sem saber porquê… Ou melhor, sei mas queria não saber para poder ter a desculpa da inconsciência…
Ele desembaraçou-se do lençol, levantou-se e abraçou-a. Beijaram-se.
Ela empurrou-o para a cama e lançou-se para cima dele.
– Escreves? – perguntou ela, agarrando numa ponta do lençol, que puxou atrás de si.
Ele ia perguntar o quê mas calou-se a tempo e disse que sim. Que escrevia.
Ela tapou-os.
– E eu leio e comento se me apetecer!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O Almoço Dulcineia


– Isto é como uma ocupação – gracejou Paulo.
– É – concordou Pedro, rindo. – Vamos ocupar o Santa Maria!
– Isso é premonitório – disse José, sério. – O antigo regime começou a cair por aí. Pelo assalto ao Santa Maria!... Foi um bocado antes do tempo – ponderou o filósofo – mas com a aceleração dos nossos tempos, os onze anos de há cinquenta anos...
– Treze  – corrigiu Pedro, como se pedisse desculpa.
– Ou treze – José encolheu os ombros desvalorizando o pormenor. – Os treze anos dessa altura agora são um mês ou dois. Assaltamos hoje o Santa Maria e sabe-se lá o que acontecerá daqui a uns dias!
– E também já temos lá os nossos infiltrados – acrescentou Pedro.
– O Galamba e o Sousa Pinto já chegaram? – perguntou José, desconfiado.
– Já – respondeu Pedro. – Já chegaram e já ocuparam os seus lugares…
– Estamos totalmente prontos para dar início às hostilidades – interrompeu Paulo, em tom marcial.
José estacou, fez uma careta de aborrecimento, cerrou o punho direito que ergueu ligeiramente com o braço num ângulo de noventa graus e cruzou o ar em frente ao peito com o punho cerrado num gesto teatral que os outros, parados a contemplá-lo, acompanharam com expectativa.
– Se eu me tivesse lembrado… – censurou-se José. Pedro e Paulo entreolharam-se sem perceberem nada. – Isso é que tinha sido! – riu-se José e recomeçou a andar. Os dois homens seguiram-no como sempre faziam.
Três passos depois, Pedro encheu-se de coragem e perguntou:
– Se te tivesses lembrado de quê?
José parou e olhou-os com ar de animal feroz. Os subalternos encolheram-se.
– Vocês, minhas andorinhas, é que se deviam ter lembrado – disse José, em tom grave e sério, que enregelou os dois “andorinhas” até aos ossos, mas que acabou num inesperado sorriso (o vento frio que vinha do mar parecia que lhe fazia cócegas e dispunha-o bem; o velho ar apalermado e aflito de Pedro e Paulo fez-lhe lembrar bons tempos e também isso lhe quebrou a simulada seriedade). Os dois homens sorriram em resposta e José continuou em tom de gracejo: – Ou pelo menos o Galamba… Sim, isso era coisa que o Galamba dos bons tempos se havia de lembrar. Vocês são demasiado… – José hesitou na escolha da palavra e olhou-os com ternura, que os dois homens sentiram como uma bênção. – Vocês são demasiado hirtos para pensarem numa provocação dessas. – José abriu os braços e pô-los sobre os ombros dos dois homens, que se queixavam silenciosamente do vento marítimo para justificar os olhos marejados de lágrimas e o nó na garganta que sentiam, e puxou-os reiniciando a marcha.
– À abordagem, meus piratas – gritou José. – Hoje não se fazem prisioneiros! Não há carabineiros, nem lagostas, nem nada que venha para a mesa que nos escape! Vai ser a rapar até ao fundo!
– Como nos velhos tempos – suspirou Paulo, limpando a vista direita com as costas da mão.
-- Como nos velhos tempos -- repetiu Pedro, num murmúrio lacrimejante mas cheio de esperanças. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O Pantomineiro senhor S.

O senhor S. aproximou-se de mim com ar conspirativo, sorriu para as pessoas com que eu falava, pediu-lhes desculpa sem convicção e, agarrando-me o braço direito, puxou-me à parte e afastou-nos do pequeno grupo. Então, seguro que ninguém mais o ouvia, declarou num sussurro:
– O doutor L. está maluco. – Olhei para o doutor L., que bocejava no meio da sala com ar alheado e ligeiramente lunático, e depois voltei a fixar-me no senhor S. que, satisfeito com a minha atenção, continuou no mesmo tom: – Sabes o que ele me disse ainda agora?
Acenei com a cabeça o óbvio, que não sabia, e ironizei num lamento:
– No entanto, algo me diz que vou ficar a saber, mesmo que isso não me interesse nada.
– Lá estás tu – repreendeu-me o senhor S. e, puxando-me ainda mais para si, reafirmou: – O homem está maluco. Não brinques.
– O que é que ele lhe disse? – Perguntei para o apaziguar, enquanto tentava, pelo menos, voltar à posição inicial: agarrado pelo braço mas sem parecermos siameses colados da cintura até ao ombro.
– Que a D. anda a enganar o marido – respondeu o senhor S. de pronto.
Olhei-o perplexo, enquanto ele abanava lentamente a cabeça para cima e para baixo e me olhava com os olhos muito abertos e esbugalhados e os lábios firmemente cerrados, provavelmente numa tentativa – frustrada – de conferir uma acrescida gravidade à frase.
– E eu não lhe perguntei nada – acrescentou o senhor S., em jeito de justificação. – Cumprimentei-o e perguntei-lhe como iam as coisas. Só lhe perguntei isso. Dei-lhe um aperto de mão e perguntei-lhe: "Então, doutor, como vão as coisas?". Ele suspirou, olhou para mim e disse-me: "Do pior, S., do pior". Eu larguei-lhe a mão e fiz uma careta de desinteressada compreensão para…
– Desinteressada compreensão? – Interrompi.
O senhor S. abanou a cabeça para cima e para baixo com vigor e, sorridente, disse em dois tons:
– É a cara de "coitadinho...-mas-o-que-é-que-isso-me-interessa?"
– O senhor tem uma cara para isso? – perguntei. O senhor S. não respondeu mas fê-la. E tinha! – Também serve para "vai-te encher de moscas" – disse eu.
O senhor S. riu-se.
– Foi mesmo isso que eu pensei: "Ó doutor, vá-se mas é encher de moscas!"
– E depois? – perguntei.
– Ele não percebeu ou fez que não percebeu a minha ostensiva e quase ofensiva desinteressada compreensão e disse-me: "Ó S., acabei de saber que a senhora D. engana o marido..."
– Foi?
– É – corrigiu o senhor S. – Parece que ainda é, ele falou no presente.
– Não era isso – esclareci. – Estava a perguntar se foi isso que ele lhe disse.
– Ah! – O senhor S. largou-me o braço, deu-me uma palmada nas costas a acompanhar a interjeição e sorriu e acenou para o doutor L. que olhava para nós com ar desconfiado mas, ainda assim, não menos lunático, apenas um pouco mais focado nalguma coisa. – Disfarça – ordenou-me o senhor S., ainda a sorrir para L. – O gajo não gosta que falem nele.
– Eu não estou a falar nele – disse eu.
– Mas estou eu, parvo!
O doutor L. cumprimentou um indivíduo qualquer que se aproximou dele cheio de salamaleques e o senhor S., puxando-me para junto de um grande vaso com uma planta enorme e desproporcionada para o tamanho da sala, preparava-se para continuar quando eu me antecipei:
– Mas quem é essa D.?
O senhor S. olhou para mim com um misto de espanto e desconsolo e, num tom ainda mais sofrido do que a expressão, disse:
– Isso queria eu saber... – Fez uma pausa e, adequando o tom e a expressão pela mais carregada das duas, concluiu pesaroso: – Pensava que tu soubesses quem era a adúltera senhora D. – Nova pausa e, depois, no mesmo tom e cabisbaixo e a abanar a cabeça na horizontal. – Eras a minha maior esperança, meu rapaz... A minha maior esperança.
– Para saber quem era a senhora D.? – Aquilo parecia-me um grande exagero mas com o senhor S. nunca se sabe.
– Sim, claro… – O senhor S. levantou a cabeça e deixou-me ver os seus olhos que brilhavam num sorriso trocista, que eu já conhecia, mas concluiu no mesmo tom e com o mesmo semblante: – Eu cheio de esperança de conhecer uma adúltera para me animar os dias e tu não sabes quem ela é... É uma tristeza. Uma tristeza... – No fim, piscou-me o olho e sorriu. Abanou os ombros e, como se fosse tudo normal, explicou: – Daqui a nada tenho de ir falar com o doutor C. – apontou com a cabeça para o homem que ainda não tinha saído de junto da mesa onde serviam as bebidas – e tenho de pôr este ar de desvalido para ver se ele me faz um favor. Sou convincente, não sou?
Eu abanei a cabeça na horizontal mas disse-lhe que sim. – E pode-lhe perguntar se conhece alguma senhora D. – acrescentei.
O senhor S. olhou para mim e depois para o doutor C.
– Nã… É melhor não. Eu sei lá se é a mulher dele.