sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Grito

A mulher passa-lhe a mão pelo cabelo. Ele sente o gesto, que o enjoa, mas não o sinaliza, deixa-se ficar quieto, sentado como está, enfiado no cadeirão onde se enterrou com os cotovelos nos joelhos e as mãos a envolverem e a segurarem-lhe a cabeça.
Ouve a mulher sair do quarto e fechar a porta. Cerra as pálpebras com força, decidido a, quando abrir os olhos, levantar-se e reagir. Tomar banho e vestir-se. O telemóvel no silêncio vibra em sessões contínuas “como no Olímpia.” Ouve a vibração na mesa ao seu lado e fica a pensar se alguém ainda usa a expressão ou, sequer, se ainda saberão o que quer dizer. Adia o descerrar das pálpebras: ainda não está preparado. No meio da vibração, há toques que identificam sms e mails a entrarem em catadupa. Enfurecem-no: “Mas pensam que eu não vi? Que eu não sei? Pensam que me estão a dar alguma novidade?!”
Inspira pelo nariz, expira pela boca. Abre os olhos. Inspira pelo nariz, expira pela boca. Solta a cabeça e levanta-a. Inspira pelo nariz, expira pela boca. Olha em volta: a colcha está puxada para cima e a roupa para vestir já está em cima da cama. Inspira pelo nariz, expira pela boca. Fixa-se na porta da casa de banho e imagina o que terá de fazer para lá chegar mas as pernas não lhe obedecem. Suspira. Inspira pelo nariz, expira pela boca. Torna a suspirar. Levanta-se e repara no telemóvel, ainda a vibrar. Agarra-o e desliga-o. “Não,” censura-se, “o telemóvel desligado é ostensivo. Não deixa dúvidas.” Inspira pelo nariz, expira pela boca. Liga o telemóvel e atira-o para cima da cama.
A televisão está desligada mas quando olha para o écran, vê um 37 em 3 dimensões. Irrita-se mas não consegue desviar o olhar. O 37 ganha um sinal % e roda, já não é em 3D, é um holograma. Um 37% cor-de-rosa, que gira e que, de repente, cai para o chão. Ri-se com a sua imaginação e passa as mãos pelos olhos e pela face, como se estivesse a lavar a cara. Reabre os olhos, certo de que tudo voltou ao normal mas da televisão cai uma cascata de 37%'s cor-de-rosa que se espalham pelo chão. Foge para a casa de banho.
Abre a água do duche e lembra-se de outro desastre perto de acontecer: “E o Maxi?”
Decide que tem de ligar ao Vieira, fá-lo-á como um simples adepto, perder o Jesus e o Maxi em quinze dias é demais. É intolerável. Não lhe vai dizer, mas perder o Maxi no mesmo dia em que lhe dão 37% e o põem atrás do Passos, é demais para um homem só. Ri-se, um riso amargo, que lhe aviva a úlcera e que o faz engolir em seco e agoniar-se com o sabor ácido que lhe sobe à garganta.
António entra para a cabina de duche, sem despir o pijama, e debaixo do chuveiro corrige a posição do manípulo do misturador, tudo para o azul, “como o Maxi”, lamenta-se.
Esquece-se de tudo imediatamente, quando a água fica gelada.
“AAAHHHH!!!”


domingo, 24 de maio de 2015

Animais Fofinhos

O pelicano lança uma pensativa baforada e, esticando-se, passa o charro ao esquilo. Recosta-se na cadeira e fixa-se, com ar sonhador, na parede em frente, num poster de um enorme ajuntamento de pelicanos num lago. Dá um longo e profundo suspiro, levanta-se lentamente e caminha com solenidade até ao poster. Torna a suspirar.
Deitado no sofá, o esquilo segue-o com o olhar enquanto se coça com indolência. Tem um sorriso matreiro estampado no rosto e os olhos, enormes, brilham como se tivessem luz própria. Dá uma longa passa.
– Isto é que eram tempos – diz o pelicano, numa voz arrastada, parando em frente ao poster.
– E nem era preciso enrolar nada – acrescenta o esquilo, animado.
– Pois. – O pelicano abana lentamente a cabeça para cima e para baixo. – A água estava cheio de ácidos, meu… Aquilo era o céu, pá, era uma nuvem do céu.
– Duas, duas nuvens, Pel: uma de ácidos e outra de aves cor-de-rosa, completamente pedradas, em cima de umas perninhas de alicate.
– Pois. – O pelicano encosta o bico ao poster e, sem que o sinta, começa a lacrimejar. – Um gajo estava ali, no meio de milhares das mais belas aves do planeta, com as patas de molho e envolvido numa nuvem de paz e amor. Completamente envolvido, completamente integrado…
– Vocês têm bicos horríveis – guincha o esquilo, sentando-se muito direito. – E olha que nem toda a gente gosta de cor-de-rosa!
O pelicano vira a cabeça e fulmina-o com o olhar.
– Sabes que vais ser empalhado, não sabes?
O esquilo salta do sofá para a secretária, para a cadeira, para a estante à direita, para o candeeiro de tecto, para a porta, para a estante, para parede e para as costas da cadeira. Ri.
– Era preciso que me apanhassem…
Imóvel, o pelicano roda o pescoço, olha para o poster, bate as asas uma vez e torna a rodar o pescoço para encarar o esquilo.
– E antes de te empalharem, vão esventrar-te totalmente. Ficas uma casca oca de ti próprio.
– Um boneco.
– Um boneco – concorda o pelicano, satisfeito.
O esquilo encolhe os ombros e lança-se para o sofá.
– Desde que não me pintem de cor-de-rosa…


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Diferente.

– Estás diferente.
– Diferente?
– Sim, estás diferente.
– Só se for por ter pintado o cabelo.
– Não estou a falar do teu aspecto exterior.
– Ah… Não? Estás a falar de quê?
– Sabes muito bem: estás diferente.
– Não, não sei. Se não é do cabelo, não sei. Tens de me explicar.
– Tu sabes… e também deves saber porque estás diferente.
– Não só estou diferente, como sei porque estou diferente.
– Sim.
– E se eu não tiver dado por isso?
– Deste, de certeza que deste. As pessoas quando ficam diferentes percebem-no e sabem porque ficaram diferentes.
– Talvez o meu anterior eu soubesse mas este agora não. Se eu agora sou este eu, não estou diferente, sou eu. Não há dois eus.
– No espaço, não. No tempo, sim. Estás diferente em relação ao que eras.
– Mas já não sou…
– Não. Por isso é que estás diferente.
– Pintei o cabelo.
– Não estou a falar disso, já disse. Estou a falar de algo mais interior, mais profundo.
– Também mudei a forma da minha depilação. Só se é isso… Fiz um triângulo.
– Um triângulo?
– Um triângulo. Um triângulo invertido.
– Um triângulo invertido?
– Sim, mas pequeno. Mínimo. Um triângulo minimal repetitivo… Achas que é isso?
– Repetitivo?
– Não… repetitivo não, era só uma piada. É só minimal. Um triângulo minimal invertido. Será isso?
– O quê?
– O que me faz estar diferente no tempo mas não no espaço. Não há duas depilações no mesmo espaço. Ou há uma ou há outra, nisso tens razão. É isso?
– Não, acho que não.
– Mas isso é interior.
– Mas não é disso que estou a falar. E a depilação não é interior.
– Interior no sentido de intima. Não era nesse sentido que estavas a dizer que eu estava diferente? No meu intimo?
– Sim, estás diferente, mas no teu íntimo, não na tua intimidade.
– Isso agora poderia levar-nos muito longe… mas, é melhor ficarmos por aqui. Se não é o cabelo, nem a depilação, afinal, estou diferente em quê?
– Diferente.
– Só diferente?
– Diferente.
– Diferente…Não sei porquê…
– Mas estás.
– Desde quando?... O meu eu que é o meu eu de referência é de quando? Quando é que estabeleceste o meu eu de referência, o meu eu com que todos os meus outros eus se comparam?
– Vês?
– O quê?
– Isso é um sinal da diferença.
– Eu não saber que estou diferente, nem diferente em relação a quê, nem a quando?
– Esta conversa.
– Esta conversa é o sinal?
– Sim.
– Então, que tipo de conversa é que o meu eu anterior teria quando lhe dissessem que estava diferente?
– Não…
– Não me digas: não era esta conversa.
– Pois não.
– Era outra?
– Não necessariamente.
– … Agora é que me apanhaste! O meu anterior eu também podia ter esta conversa?... Não estou a perceber.
– Se tu não estivesses diferente, nós não tínhamos esta conversa.
– Ah!... Bolas. Está visto que não tenho hipóteses. A diferença já está estabelecida. Fosse o que fosse que eu dissesse, só o diria, ou digo, porque estou diferente. É isto, não é?
– É. Com toda a franqueza, é. Eu só estava a constatar um facto…
– Não estavas a pedir a minha opinião.
– Não.
– Nem é um facto sujeito a contraditório. Estou diferente ponto final.
– Pois.
– Ah!... Agora que sabemos as duas que estou diferente, que isso está assente de forma inquestionável, só não percebi uma coisa…
– O quê?
– Estou diferente para melhor ou para pior?

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Jantar Fora

Já ninguém é capaz de dizer nada, queixou-se o homem.
Porquê?, perguntou a mulher, distraída.
As pessoas têm medo.
Medo?
Medo.
Medo de quê?
Do relativismo em que vivemos.
A mulher suspirou. Tinha quase a certeza que não queria saber mais. Sabia que, se lhe perguntasse o que quer que fosse, até se ainda havia cenouras no frigorífico ou se ele se lembrava da última vez que tinham saído para jantar só os dois, ele ia prosseguir com um discurso inflamado contra o relativismo moral, contra a falta de convicções, contra a impossibilidade de as manter e defender…
Só se dissermos que somos de esquerda, desabafou o homem, numa tentativa de que a conversa não terminasse. Se nos anunciarmos de esquerda, continuou, e nos filiarmos ou nos apresentarmos como simpatizantes de qualquer coisa de esquerda podemos ter as opiniões que quisermos e anuncia-las quando e onde quisermos que ninguém nos diz nada.
É?, perguntou ela, apesar de já saber que sim, que era; que, na opinião dele, aos putativos esquerdistas tudo era permitido: dizer isto e o seu contrário, ser revolucionário e reaccionário, poder ser e não ser, estar e não estar. “Para se ser de esquerda basta proclamá-lo, não vivê-lo, nem sequer fingir. É uma tristeza”, havia ele de dizer se a conversa continuasse. “Eu sou mais de esquerda que a maioria das pessoas que se dizem de esquerda. Tenho valores e rejo-me por eles. Eu é que sou de esquerda mas não ando por aí a dizê-lo.” É?, insistiu ela, com um brilho no olhar que ele não viu.
Claro que é, confirmou ele, iniciando o tal discurso que ela já sabia que ia acontecer e que, efectivamente, aconteceu.
E, no meio disso tudo, tu achas que jantar fora é uma exploração do homem pelo homem?, lançou a mulher, inopinadamente, quando ele já ia na fase em que havia de se afirmar mais de esquerda do que a maioria dos que se dizem de esquerda.
Jantar fora?, inquiriu ele, surpreendido. Ela acenou que sim com a cabeça. Ele aproveitou o movimento ascendente e descendente da cabeça da mulher para pensar no que pretenderia ela com aquela pergunta. Se eu acho que jantar fora é a exploração do homem pelo homem?, repetiu ele, alto mas como se falasse para si próprio.
Ela continuou a balançar a cabeça e não o deixou continuar a fazer tempo: Achas?
Não, disse ele, peremptório, não acho. Ela lançou-lhe um sorriso interessado e bajulador, ele empolgou-se: É verdadeiramente um serviço em que deve imperar o mercado livre, regulado, claro, mas livre. Apesar de a restauração ser uma das actividades mais emblemáticas do capitalismo, é, se deixada actuar num mercado livre e concorrencial, um paradigma do funcionamento da lei da oferta e da procura. É uma actividade que premeia a qualidade, que recompensa o trabalho. O bom trabalhador é reconhecido e o valor do seu trabalho…
É devidamente valorizado, concluiu ela.
Sim, concordou ele, animado. O factor trabalho na restauração, pela sua proximidade ao consumidor final e pela instantaneidade dos seus resultados, é normalmente mais valorizado do que noutras actividades. Um bom cozinheiro ou um bom empregado…
E, no entanto, interrompeu a mulher, usando um tom assertivo e seco, nós nunca vamos jantar fora. Nunca. Nunca valorizamos cozinheiros, nem empregados de mesa.
O homem baixou a cabeça e olhou para os seus sapatos. Cruzou as mãos, entrelaçando os dedos e, danado, mordeu o lábio inferior. Reflectiu na armadilha que a mulher lhe lançara e, por fim, recomeçou num tom crítico e rígido, enquanto, derrotado, reparava no cabelo arranjado, na roupa de sair e nos sapatos de salto que a mulher apresentava. A formulação da tua pergunta não foi a mais correcta e foi, até, demasiado simplista. Na realidade…
Na realidade, eu hoje não fiz jantar, completou a mulher, olhando ostensivamente para o relógio de pulso. E não vou fazer, anunciou, antes de se levantar, sorrir-lhe e começar a andar. Vens?, perguntou, passando por ele lentamente, num andar estudado para fazer estragos.
Eu… Eu…, balbuciou o homem, seguindo-a com o olhar.
A mulher parou antes de sair da sala, ajeitou a saia e baixou-se para a frente, sem que ele percebesse para fazer o quê. O resultado do movimento fê-lo esquecer a dúvida.
Eu acho que hoje é um dia bom para começarmos a valorizar o factor trabalho das pessoas da restauração, declarou o homem, levantando-se. Um dia muito bom.


quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Remédio

Movendo o copo de whisky em pequenos círculos sobre o tampo da mesa, Marco lançou a Fátima um olhar lânguido e acenou ligeiramente com a cabeça, reforçando o convite que acabara de fazer. Fátima fixou-o com uma expressão enigmática e aproximou-se devagar, sempre a sorrir mas sem mostrar os dentes.
Marco engoliu em seco, sentiu uma fraca pontada de excitação na zona dos rins, as pontas dos dedos a arrefecerem e um aperto no peito que lhe esmagava o optimismo. Levou o copo à boca para se defender. Estava nervoso e apetecia-lhe rir. Mais, apetecia-lhe ser directo e dizer que já não tinham idade para olhares lânguidos e expressões enigmáticas nem aquele era o sítio certo para isso mas calou-se, pousou, diplomaticamente, o copo vazio e perguntou num tom aveludado:
– Vamos?
Fátima olhou-o desemparelhando as sobrancelhas, a esquerda subiu e a direita desceu, e, ainda com os lábios cerrados, tornou a sorrir, um sorriso ligeiro mas cheio de troça e malícia. Marco voltou a engolir em seco, tentando desmobilizar o aperto no peito que, alastrando, já o sufocava, e lembrou-se de Carolina, que, se ali estivesse, havia de abanar lentamente a cabeça para o desmoralizar e dizer-lhe que era imprestável, e de Aníbal, que insistira que ele ali fosse para esquecer a Carolina e seguir em frente.
– Eu sou amigo do Aníbal – disse ele, hesitante.
– Ah… O amigo do Aníbal – troçou Fátima com uma careta. Ele confirmou baixando a cabeça. Ela sentou-se ao seu lado e perguntou: – E foi ele que te disse para vires ter comigo? – Marco repetiu o gesto. Fátima inspirou pelo nariz, passou a mão esquerda pela franja e fez menção de se levantar. – Estás pronto, tens a certeza?
– Não sei – confessou Marco num fio de voz. – Sinceramente, não sei. – A mulher continuou sentada e olhou-o pela primeira vez com algum interesse. Ele reparou, ganhou alento e acrescentou: – O Aníbal é que insistiu que viesse mas eu acho que não estou preparado…
– Há uma mulher – disse Fátima, com um sorriso simpático e compreensivo. Ele confirmou com uma expressão conformada e triste. A mulher endureceu o tom mas não a expressão: – E o Aníbal, esse parvo, mandou-te cá vir para a esqueceres… – Marco baixou a cabeça como se sentisse culpado e arrependido por ter obedecido. Fátima deu uma gargalhada ligeira, encolheu os ombros, sorriu-lhe com um sorriso encantador e concluiu: – O homem tem a mania que tudo se resolve com sexo, que o sexo é um remédio. Não é mau diabo mas é um bocado alucinado… e insistente. – Marco concordou e devolveu-lhe o sorriso. Fátima suspirou e parou de rir. – Mas não é aqui que vais resolver os teus problemas, sejam eles quais forem ou com quem forem.
– Ana – anunciou Marco e levantou-se, decidido. – Ela chama-se Ana. – Fátima sorriu mas continuou sentada. – E eu Bruno. – Apresentou-se ele enquanto a mulher se levantava.
A mulher ficou em pé à sua frente, com o rosto quase encostado ao seu.
– Muito prazer, Bruno. Eu sou a Beatriz – disse a mulher, inclinando-se para ele e dando-lhe um ligeiro beijo na face. – Vamos? – Murmurou-lhe ao ouvido.
Ele esperou que os seus rostos estivessem frente a frente e, num movimento brusco, beijou-a.
Ela afastou-o com um empurrão, fazendo-o cair no sofá.
– O Aníbal deve ter-te dito que eu não beijo, Marco – disse ela, realçando o nome.
– Ele disse-me que tu normalmente não beijas, Fátima – respondeu ele, sublinhando o nome –, não disse que tu não beijavas ou que…
– Achaste que era um desafio? – Interrompeu ela.
Marco confirmou com um “Pois” convicto mas pouco audível.
– E porque é que não disseste que te chamavas Marco?
– Porque... – Ele calou-se e reconheceu: – Não sei.
Fátima sorriu, abanou a cabeça, aceitando a falta de explicação e estendeu-lhe mão para o ajudar a levantar.
– Prometes que não me tentas beijar? – Perguntou-lhe enquanto o puxava.
Marco pôs-se de pé, mordeu o lábio inferior, riu-se e respondeu olhando ostensivamente para a boca dela:
– Posso tentar mas não posso prometer.
Ela inclinou a cabeça, fixando-se nos lábios dele, hesitou um momento e propôs:
– Prometes que não dizes ao Aníbal se eu te beijar?
– Se tu prometeres não dizer à Ana.
– À Carolina – corrigiu ela, piscando-lhe o olho.
– Se tu prometeres não dizer à Carolina – rectificou ele. – O Aníbal contou-te tudo, não foi?
– Mais do que eu queria saber…


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Isto não é uma conversa

Precisamos de conversar, sinalizou o telemóvel.
Precisamos?, escreveu.
Precisamos., responderam-lhe.
Porquê?
Porque não?
Eu não disse que não queria. Perguntei: porquê?
Porque precisamos.
É vago.
O que interessa não é isso.
Não? Então, o que é?
O conteúdo da conversa.
Diz.
O quê?
O queres dizer.
Temos de falar.
Também acho.
De quê?
Tu não sei, ainda não disseste.
E tu?
Da tua sanidade mental.
Da minha?!
Sim, da tua.
Porquê?
Isto não chega?
Isto?
Esta conversa.
Isto não é uma conversa.
O outro também dizia que aquilo não era um cachimbo.
O quê?
Um cachimbo.
Mas se era um cachimbo…
Pois, é como isto: uma conversa que tu dizes que não é uma conversa.
Isto é uma troca de sms.
O cachimbo também não era um cachimbo: era a imagem de um cachimbo.
Estás a insinuar que eu não sei o que é uma conversa?
Não estou a dizer.
Ah! Ao menos isso.
Falta a vírgula: “Não, estou a dizer.”
Não percebi.
Não estava a insinuar, estava a dizer!
Não se pode falar contigo!
Mas temos de o fazer…
Pois temos.
Achas que é mesmo necessário?
15.000 empregos, viste?
O quê?
O PS diz que vai criar 15.000 empregos.
Vi mas eu ainda sou do tempo em que o PS criava 150.000. Cento e cinquenta mil. Estes são uns meninos.
Pois, o Sócrates é que era. Era tudo à grande.
Era isto?
O quê?
O que tínhamos para falar?
Não, achas?
Eu não acho nada. Só perco…
Falamos depois, agora não posso.
Ok.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Outro Dia

Maria, escondida atrás dos seus óculos escuros, olhou para Rafael e estudou-lhe o rosto: a face bem escanhoada, os lábios finos a desenharem um sorriso trocista, o nariz ligeiramente torto que parecia reforçar a troça no sorriso, os olhos castanhos que não paravam em lado nenhum e uma pequenas rugas na testa que, se ela bem o conhecia, denunciavam o esforço que ele estava a fazer para se manter calado. Apesar do sorriso, a expressão de Rafael não escondia o enfado de estar ali, de estar calado, de estar à espera. “Tenho mais que fazer”, anunciava o rosto do homem. “Muito mais que fazer.”
Maria olhou para a esplanada em volta, quase vazia, para as chávenas de café na mesa, para o papel da conta com moedas em cima e para as suas próprias mãos. Esticou os dedos como se precisasse de confirmar a cor das unhas e, mantendo os olhos nas unhas, disse num tom meramente informativo:
– Causas-me repulsa, Rafael. Esse teu sorrisinho sonso e esse ar de quem não quer saber e está acima de tudo e de todos. Acho que és um triste, Rafael.
– É a tua opinião, Maria. – O homem ergueu e baixou o ombro direito, fez uma careta de quem não quer saber e concluiu calmamente: – E, hoje em dia, toda a gente tem direito à sua opinião e, o que é pior, a expressá-la em voz alta como se fosse alguma coisa de jeito e os outros tivessem a obrigação de a ouvir.
A mulher olhou para lá dele e pensou em como o amara em tempos, em como se sentira morrer e renascer quando faziam amor, em como precisara dele para ser feliz, para se sentir mulher, para viver.
– Eu era muito burra – suspirou Maria com um sorriso triste. Riu-se. – Eu era muito burra e tu sempre foste um animal. – A mulher gostou da surpresa na cara dele e continuou, sempre a sorrir: – E eu, burra, não via ou não queria ver o animal que tinha em casa. Quando tinha… Se é que tinha. O que é que andavas a fazer, Rafael?
– Pelos vistos, a dar-te tempo e espaço para pores o merdas lá em casa. Para se enfiar dentro de ti… Primeiro aí e depois aí. – O homem apontou para a cabeça e, depois, para o sexo dela. – Ou terá sido ao contrário?... Deve ter sido ao contrário: primeiro comeu-te e só depois é que te fez a cabeça.
Maria fez uma careta e replicou:
– Quando ele me comeu tu já não estavas lá.
– Dizes tu.
– Digo eu porque é verdade. – Maria esboçou um sorriso provocador e triunfante que se foi desvanecendo. – Podia ter acontecido enquanto tu ainda lá estavas mas nunca aconteceu. Só depois te termos acabado é que o fizemos.
– Mas ele já estava enfiado lá em casa. Na nossa casa – reclamou o homem.
– Ele começou a ir lá por causa do cão. Sabes isso muito bem.
Rafael não respondeu, fixou-se pensativo no tampo da mesa e, após uns momentos de silêncio, levantou a cabeça e declarou enfático:
– Uma mentira de uma mulher vale mais do que cinquenta verdades de um homem.
Maria suspirou.
– E?
– E?
– Sim, e depois? O que queres dizer com isso?
– Nada… Ouvi isto no outro dia.
Maria abanou a cabeça em sinal de desespero e cansaço.
– Continuas na mesma.
– Eu nunca vi o cão – declarou Rafael, como se se tivesse lembrado da razão porque dissera a frase anterior e fosse evidente a ligação entre as duas.
– Tu nunca viste foi a cadela. – Maria tirou os óculos. – O cão era meu, ele tinha era uma cadela que queria que o Boris emprenhasse.
– O Boris não pode emprenhar.
– Não era a cadela que queria que o Boris emprenhasse. – Maria mostrou-lhe a língua: conhecia-o bem demais para se deixar apanhar. – Era ele que queria que o Boris emprenhasse a cadela.
– E o Boris?
– O Boris, o quê?
– Queria emprenhar a cadela?
– Desculpa lá! - A mulher forçou-se a fazer uma pausa e respirou fundo e olhou em volta. Estava mais calma quando recomeçou: - Porque é que estamos a falar do Boris?
– Tu é que falaste nele. Tu é que disseste que o interesse do merdas não era comer-te mas que o teu cão lhe comesse a cadela.
– És muito desagradável…
– Não foi isso?
Maria fez uma careta, encolheu os ombros e concordou:
– Sim, foi isso. Ele queria que o Boris lhe emprenhasse a cadela. – A mulher deixou a cabeça descair para o lado direito e soltou um risinho desafiador. – Só depois é que me quis comer.
– Depois de eu ter saído…
– Sim, também não dava muito jeito que lá estivesses. – A mulher riu-se, divertida. – Era um bocadinho estranho: o Boris e a cadela no quintal, eu e o merdas no quarto e tu na sala a veres a Benfica TV… Não era um quadro muito bonito.
– Podia estar a ver outro canal.
– Ah… Pois! Isso é verdade, escusava de ser tudo tão mau.
– O Boris não gostou?
– Sei lá se o Boris gostou. Eu não gostei.
– Eu não quero saber.
– Pensei que quisesses. Quiseste vir tomar café comigo.
– Sim mas…
– Quiseste esclarecer certas coisas e disseste que gostavas que tivéssemos mais contacto. Afinal…
Rafael respirou fundo e passou a mão direita com força pela testa como se quisesse esfoliá-la. Tornou a respirar fundo, no que pareceu mais um suspiro que outra coisa, o que 0 aborreceu por sair assim, e fixou-se nas moedas em cima do papel da conta.
– Queres factura, Maria Luís?
A mulher olhou-o com furioso e bélico desprezo: era de esquerda, uma esquerda baixa e trauliteira, avançada nos costumes dos outros e distribuidora dos bens alheios; que troçava, gozava, injuriava e insultava à boca cheia e por dá cá aquela palha mas que só a si se reconhecia esses direitos e para quem o sentido do humor só o era se saísse da sua boca, da sua pena ou de alguns dos da sua cor.
Satisfeito com a reacção provocada, Rafael agarrou nas moedas com outro ar e levantou-se.
– Não queres? – insistiu.
– Continuas o mesmo porquinho reaccionário, Rafael. – Maria também se levantou.
– Não te chamas Maria Luís?
– Com muito gosto – rosnou a mulher.
Rafael arrumou a cadeira, acenou ao empregado com o polegar erguido e sorriu beatificamente na direcção de Maria.
– Não percebi uma coisa… – disse ele, depois de ela sorrir para o empregado que viera levantar as chávenas de café e despedir-se dela.
“Já não via há tanto tempo, Menina. Gostei muito de a ver. Dê cumprimentos ao senhor professor doutor. Ele está bem, o seu paizinho?”
“Vai andando, Joel, vai andando. Também gostei muito de o ver, Joel. Gostei muito.”
– Uma?! Não percebeste uma coisa? – troçou ela, depois do empregado se ir embora e eles começarem a caminhar lado a lado em direcção ao parque subterrâneo onde tinham os automóveis. – Deves andar a tomar alguma coisa para o cérebro. Uma conversa de quase meia hora e só não percebeste uma coisa?
– Podias ter beliscado a bochechinha do Joel – replicou ele, juntando os lábios numa boca pequenina e, imitando a voz dela mas num registo excessivamente ternurento, declamou, enquanto agitava a mão como se beliscasse a bochecha de alguém: – “Gostei tanto de o ver, Joel. Gostei muito, meu querido proletariozinho, se pudesse levava-o para casa, dava-lhe um banhinho e punha-o ao pé do Boris…”
Maria deu-lhe um murro no ombro mas não evitou um sorriso, enquanto lhe chamava parvalhão e lhe dizia pela centésima vez, ainda que há muito não lho dissesse, que não gostava do velho lambe-botas do Joel, esse proletário desnaturado e reaccionário que não sabia o que era bom para si e que acompanhara o paizinho no tempo em que ele era de um partido de direita que ele se recusava sequer a nomear. Mas o pai tinha visto a Luz e caminhado para ela, enquanto o Joel, esse velho patarata, continuava com o mesmo ar desenxabido e apatetado que têm os velhos de direita.
Para Maria, o paizinho era uma espécie de Benjamim Button: tinha rejuvenescido a caminho da velhice e estava hoje muito mais moderno e arejado do que alguma vez fora. As ideias de esquerda que o velho hoje debitava com a mesma certeza e iluminada lucidez com que debitara as de direita quase até aos oitenta anos pareciam ter propriedades miraculosas que lhe davam saúde e força.
“Nunca é tarde para ver a Luz”, dissera-lhe uma vez o merdas, com ar de quem perdoa.
“Nem todos, Luís Augusto, nem todos têm a capacidade que o meu pai teve de se redimir. De ponderar e pensar”, respondera-lhe ela, enquanto viam o Boris desajeitamente a tentar montar a cadela sem sucesso.
“É preciso tempo…”, dissera ele.
“Só o tempo não chega”, replicara ela, que ultimamente admirava o pai acima de quase todos os homens. “É preciso mais qualquer coisa. É preciso ter mais do que tempo. É preciso estar preparado, ter um espírito forte e uma boa natureza.”
“Isso é tudo verdade mas uma boa erecção e jeito para saltar para a espinha também faz muita falta.”
“Eu ainda estava a falar do meu pai, Luís Augusto.”
Maria riu-se, lembrando-se do ar de parvo do merdas ao dizer embaraçado:
“Eu estava a falar do Boris.”
– És um parvalhão – repetiu Maria, ainda a rir, empurrando Rafael com o ombro. – E afinal, o que é que não percebeste?
Rafael hesitou e, de repente, parou e ficou a olhar para ela.
– Ah… – lembrou-se. – Foi impressão minha ou chamaste-lhe merdas?
Maria parou um passo à frente, virou-se de lado e olhou-o com excessivo e teatral desdém até se desfazer num enorme sorriso, que acompanhou com um encolher de ombros que afastava qualquer arrependimento.
Ele riu-se mas, quando continuou, tentou fazê-lo com ar sério:
– Chamaste merdas ao grande Luís Augusto, esse farol da esquerda que tudo alumia com o seu saber e probidade? Merdas, o Luís Augusto?! Pensava que era só eu que achava isso.
– O tipo é um merdas – reconheceu Maria, tornando a encolher os ombros e baixando ligeiramente a cabeça, com ar de gozo – e a cadela, coitadinha, era um pãozinho sem sal. Estavam bem um para o outro: não se aproveitava nada.
– E o Boris?
– O Boris?! – Ela recomeçou a andar. Ele seguiu-a. – O Boris era como tu: muito entusiasmo e fanfarronice mas pouca aptidão natural para a coisa.
– Ai é?
– Sim, é – Maria encostou-se ao seu automóvel. Rafael pôs-se à sua frente, esticou o braço direito e apoiou a mão no friso da porta. Maria, passou a ponta do indicador e do dedo médio direitos pela sobrancelha e rematou: – Mas quando apanhou a cadela certa aprendeu e é um espectáculo digno do National Geographic…
– Eu? – interrompeu Rafael, olhando-a nos olhos.
– Não, o Boris – respondeu ela, com implacável frieza, mantendo o olhar.
Sorriram um para o outro.
Maria beijou-o na bochecha esquerda e saiu pela sua direita. Mostrou-lhe o comando do automóvel, enquanto os piscas piscavam e as portas se destrancavam e despediu-se.
– Outro dia, Rafael. Outro dia.


terça-feira, 7 de abril de 2015

um

– As coisas são o que são – disse André, enquanto caminhava, enfiando as mãos nos bolsos das calças de ganga.
– Nem sempre – discordou Laura, sem olhar para ele. – Às vezes, as coisas são umas e nós pensamos que são outras.
– Mas não deixam de ser o que são – contrapôs o homem, parando no passeio junto a um cruzamento. Estava vermelho para os peões.
Laura parou ao lado dele e não respondeu.
O sinal ficou verde e atravessaram a rua em silêncio. Quando chegaram ao outro lado continuaram a andar e ela recomeçou a conversa:
– Sim, mas se nós não as vemos pelo que são mas como o que queremos ver…
– Ou não – acrescentou André, olhando para Laura de esguelha.
– Ou não?
– Sim, muitas vezes não vemos as coisas como são verdadeiramente mas também não as vemos como queríamos que fossem – respondeu André, olhando sempre em frente enquanto caminhava. Ela ouvia-o com atenção mas com ar pouco convencido. Ele acrescentou: – Pelo contrário, vemos o que não queríamos ver. Não vemos as coisas pelo que são mas pelo que não queríamos que fossem.
Laura parou, tocou-lhe no braço para o fazer parar e virou-se para ele.
– Nós estamos a falar exactamente de quê? – perguntou-lhe, com ar desconfiado.
André olhou em volta, disfarçadamente como se estivesse com medo de estarem a ser seguidos mas não quisesse mostrar que procurava alguém, e, quando os seus olhos se reencontraram com os dela, sussurrou:
– De coisas.
Laura suspirou, de cansaço.
– Que coisas?
André tocou-lhe no braço e recomeçou a andar.
– Sabes que o Google hoje disse-me para sair às sete e quarenta e três para me encontrar contigo às oito?
Laura não o seguiu logo e quando o fez, caminhou com lentidão, obrigando-o a parar ao fim de sete passos, a voltar-se para trás e a esperar.
– O Google disse-te o quê? – perguntou ela.
André apontou para uma pastelaria com a cabeça e, sem responder, sugeriu num tom conspirativo:
– Vamos aqui.
Laura respirou fundo: não estava a perceber, nem a gostar.
– Não íamos jantar? – replicou.
– Eu quero mostrar-te uma coisa – disse ele, abrindo a porta da pastelaria.
A mulher estacou do lado de fora da porta e insistiu:
– Não me podes mostrar ao jantar?
André fez uma careta de aflição e rolou os olhos de forma estranha. Laura decidiu entrar pela porta que ele continuava a segurar.
– Estamos fechados – avisou uma voz masculina, quando os passos dos saltos altos dela soaram no chão de mosaicos do estabelecimento.
Eles entreolharam-se e procuraram o dono da voz, sem resultados. Laura fez menção de se virar para sair mas André largou a porta que se fechou.
– Já estamos fechados – repetiu a incorpórea voz, quando a porta bateu levemente.
– Boa noite – disse André, sem saber para onde falar. – É só um minuto para mostrar uma coisa à minha amiga.
Laura fulminou-o com o olhar: a “minha amiga” não lhe soou nada bem.
– Mostre na rua – replicou a voz.
– Não posso, estamos a ser seguidos…
– Estamos?! – Interrompeu Laura, surpreendida, olhando para a rua. – Estamos a ser seguidos por quem?
– Isso é que é pior – comentou a voz, num tom interessado. – E estão a ser seguidos porquê?
André deu um passo para dentro da pastelaria, na direcção de Laura, que continuava à procura de vislumbrar alguém na rua, quando a voz se elevou numa ordem:
– Alto! Estamos fechados, já disse!
– Mas… – Laura estava a ficar irritada, não só não via ninguém na rua, como não via o dono da voz. – Desculpe lá, mas onde é que o senhor está?
André fez-lhe uma careta e sinal com as mãos para ter calma e depois apontou para cima com um subtil movimento ascendente da cabeça, que as sobrancelhas erguidas e os olhos imitaram. Laura seguiu-lhe as indicações encontrou um espelho esférico convexo que se encontrava junto ao tecto, no canto da sala entre a parede da entrada e a parede atrás do balcão. Num dos lados do espelho estavam eles, no outro a cabeça de um homem a quem parecia faltar o corpo. Laura deu um passo para trás.
– Nunca viu? – perguntou a voz, reflectindo no espelho um sorriso sarcástico e mal-intencionado, que caminhava na direcção deles.
Laura seguia-lhe o reflexo com ar assustado e chegou-se mais para o pé de André e, quando a cabeça sorridente apareceu acompanhada de um pequeno corpo por detrás do balcão, gritou:
– Um anão!
O anão parou de sorrir, levantou a cabeça e as mãos, olhou para Laura e depois para trás de si num frenesim apavorado e, enquanto corria para se abraçar às pernas de Laura, gritava:
– Onde?! Onde?! Onde é que está o anão?!

quinta-feira, 26 de março de 2015

A Conversa

– Tenho de te dizer qualquer coisa? – Perguntou a mulher, torcendo ligeiramente os lábios, depois de o ouvir falar durante mais de cinco minutos.
O homem olhou para ela e não respondeu; encolheu os ombros, esboçou um sorriso conformado que, no entanto, contradisse: – Se quiseres.
– O quê?
– O que quiseres.
– Não é isso – esclareceu ela. – Eu sei que posso dizer alguma coisa se quiser. O que eu queria saber era o que querias que eu te dissesse.
O homem encolheu os ombros e não escondeu uma careta de aborrecimento.
– Eu quero que digas o que quiseres. O que achares que deves dizer. Se quiseres dizer alguma coisa… – O homem calou-se, tirou um maço de tabaco do bolso do casaco e, enquanto o abria e extraía um cigarro, murmurou: – Não quero que me digas o que eu quero ouvir.
– Não podes fumar – anunciou a mulher, peremptória.
– Nã0? – Os olhos do homem não se decidiam entre o maço numa mão, um cigarro na outra e os olhos castanhos da mulher, que pareciam ter ganho um novo brilho.
– Não, aqui não podes fumar – repetiu a mulher. “E não encolhas os ombros, por favor”, pediu a mulher em pensamento.
O homem guardou o maço no bolso de onde o tirara mas ficou com o cigarro na mão. – Nem à janela? – perguntou. – Eu costumo fumar à janela.
A mulher acenou com a cabeça que não. – Mas precisas mesmo de fumar? – inquiriu.
Ele olhou para o cigarro, preso entre o indicador e o dedo médio da mão direita como se já estivesse a ser fumado, suspirou e abanou a cabeça para cima e para baixo.
– Então, tens de ir à rua – disse ela, num tom meramente informativo.
– E a nossa conversa? – inquiriu ele, sem deixar de olhar para o cigarro.
– A nossa conversa? – A mulher fixou-o, sem simpatia. "A nossa conversa foi mais um monólogo..." – A nossa conversa acabou. Tens de ir fumar, não é?
– Mas podemos continuar quando eu voltar… – sugeriu ele, pouco à vontade.
– Sim, claro. – Ela mostrou-lhe um sorriso irónico, a acompanhar o tom sarcástico e um olhar cáustico. – Claro que sim. Entretanto eu aproveito e vou pensar no que tu queres ouvir.
– Eu não quero ouvir nada – indignou-se o homem.
– Ah… – A mulher ergueu as mãos num gesto teatral. – Mas, assim, é muito melhor: tu não queres ouvir nada e eu não te quero dizer nada. O que poderia ser melhor que isso?
– E não vais dizer nada sobre aquilo que eu te disse?
Ela abanou a cabeça negativamente. – Não – reforçou.
– E ficamos assim? – insistiu ele, com ar incrédulo.
– Não, eu fico assim, tu vais ficar com mais nicotina e alcatrão nos pulmões. São escolhas.
– E não me dizes nada?
– Não, tu és maior e vacinado, fumas se quiseres. Eu não tenho nada a dizer a isso.
– Eu não estava a falar do tabaco.
– Eu calculei que não estivesses.
– Mas…
– Mas nada – interrompeu a mulher, sem paciência. – Tu não tinhas de ir fumar?
– Posso ir depois – respondeu o homem.
A mulher apontou para o cigarro e pediu-o com um gesto. O homem estendeu-lhe a mão com o cigarro. Ela tirou-lho.
– Tens lume? – perguntou.
O homem, sem outra reacção, tirou um isqueiro do bolso e deu-lho.
– Afinal eu é que vou ficar com a nicotina e o alcatrão – disse ela, encaminhando-se para a porta do gabinete. – Quando saíres apaga a luz – e saiu.

quarta-feira, 18 de março de 2015

O Hino

(os nomes foram alterados para proteger os inocentes)

– Indícios… – bufou Sócrates, largando com desprezo as folhas de papel em cima da mesa.
– Indícios?
– Sim, meros indícios. Insidiosos indícios.
– Uma cabala – acrescentou o Dr. Araújo, ajeitando as folhas do Acórdão.
– Pois, isso. Uma ardilosa construção para enganar e condicionar os juízes à solução preconizada…
– Uma ficção jurídica…
– Jurídica e de facto. Uma narrativa. Uma má narrativa. Um romance de terceira categoria – Sócrates riu-se.
– Ainda posso dizer que está divertido?
– Essa é outra, ó doutor. Mas que merda de conversa foi essa? Acha que é de bom-tom mandar as pessoas tomarem banho a meio da manhã e à tarde dizer que eu estou divertido? Isso não lembra, ó Camões, homem. E ele era zarolho.
– O engenheiro é que me disse, na segunda-feira, lembra-se?
– Mas eu não sabia tudo o que se tinha passado e o doutor tem que ter discernimento! Tem que ler o ar dos tempos. Perceber até onde pode ir... – Sócrates calou-se e olhou para as mãos do causídico, o indicador e o dedo médio estavam amarelecidos do tabaco. – Ah… E outra! Mas que raio foi aquilo de se pôr a cravar cigarros?! A cravar cigarros?!
– Nem todos temos um amigo como o Santos Silva...
Sócrates fixou o advogado, com um olhar mortífero.
– Isso quer dizer exactamente o quê?
– Que se o engenheiro fumasse ele fornecia-lhe cigarros, só isso. Não tinha de os cravar.
– Ah… Estou a ver. Não tem graça.
O advogado baixou a cabeça e encolheu os ombros.
Sócrates recomeçou a falar, pensativo:
– Se calhar, o velho tem de cá vir outra vez…
– Olhe que ele já não está a ajudar, engenheiro, e nunca sabemos o que ele diz quando sai daqui.
– Pfff… Pelo menos, não se põe a cravar cigarros.
O advogado suspirou, encolheu os ombros e desviou:
– E afinal, vamos para os indícios? Para a posição privilegiada do Ministério Público e do Juiz de Instrução para só apresentarem o que lhes favorece; o que se enquadra na versão que querem fazer prevalecer?
– Sei lá… E o Costa?
– Não deve querer cá vir… Ele já da outra vez foi um caso sério para cá vir.
– Esse sacaninha! O gajo é que se ficou a rir. Com o Supremo e com a Relação. Mais do que os outros. Se eu saísse rebentava com isto tudo. Tudo! Agora assim…
– O importante é que ele ganhe. De preferência, com maioria.
– Não sei. Se ele ganha com maioria é gajo para virar o bico ao prego. O gajo é um sacaninha, doutor, oiça o que eu lhe digo. Tem de estar sempre a ser apertado. Sempre.
– O engenheiro aperta-o. E a sua rapaziada também. Isso não me preocupa muito. O que me preocupa é o agora, estas duas decisões vão provocar-lhe muitos danos…
– Danos?! Você viu os jornais de hoje? Não dizem quase nada! Os danos estão a ser contidos, o Acórdão da Relação foi abafado pelo Habeas Corpus e eu para a semana escrevo outra carta ou dou uma entrevista: o Ministério Público escreveu um romance. Um romance para me tramar.
– E o hino, engenheiro?
– O hino?
– Sim, aquele do “Sócrates sempre presente. José Sócrates sempre.” Mas que raio de cena é aquela?! Aquilo é macabro, engenheiro…
– Ah!... O hino! Deixe estar o hino. É ruído. Uma manobra de diversão. Temos de ir criando ruído de fundo, já lhe disse. Distracções. E aquilo saiu tão mau que não se conseguia fazer melhor.
– Lá isso é verdade. Em questões de ruído: quanto pior, melhor.
– Bem visto, meu caro, bem visto. E deixe-me que lhe diga: nessa perspectiva, o doutor também não vai nada mal. Nada mal.