"Amibas!"
exclamou exaltado o convicto condómino. "Sois todos uns
protozuários!" gritou furibundo de vermelho vivo pintado a quem não o
queria ouvir. "Vendidos! Chulos! Badamecos!" escarrou enraivecido o Quixote
do segundo direito. "Nunca! Ouviram?! Nunca!" despejou numa golfada
de ódio e perdigotos o indignado Che. "Cinco euros para limpar as
escadas?! Cinco euros?!... Paguem vocês! Fascistas!" berrou o explorado
vizinho, levantando-se numa fúria revolucionária a caminho da porta. “Se
limpassem os pés, suas cavalgaduras, nem era preciso limpar nada!”, ralhou com
o empenho dos que se sabem com razão e agarrou a maçaneta que rodou com violência
desnecessária. Abriu a porta com brusquidão, desejou com inesperada suavidade e
ternura “Boa noite e bom fim-de-semana a todos” e saiu batendo a porta com estrondo.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
O Brilho das Pessoas Felizes
Primeiro, ela
falou e ele ouviu.
Depois, ele
falou e ela ouviu.
Então, começaram a falar os dois. E concentraram-se tanto em falar que deixaram de ouvir e de se ouvirem.
Discutiram. Muito.
Subitamente, ela encaminhou-se para a porta da sala e, serenamente, pôs um ponto final na conversa:
Subitamente, ela encaminhou-se para a porta da sala e, serenamente, pôs um ponto final na conversa:
– Acabou-se, Bernardo. A decisão está tomada, ponto final. O que há para resolver é
só a forma de o fazer, mais nada.
Ele não a contrariou mas grunhiu e esbracejou como um louco furioso numa luta contra um poderoso inimigo
imaginário, provavelmente um polvo gigante muito rápido e com capacidades de
desmaterialização, tal era o empenho anárquico dos seus movimentos e a
desconcertante placidez das suas pausas; no fim, sempre em silêncio, sentou-se.
Ela
manteve-se quieta, em pé de braços cruzados, contemplando o espectáculo.
Ele suspirou ruidosamente e pousou os cotovelos nas pernas, enfiando a cabeça entre as mãos.
A
mulher hesitou entre o silêncio e o ficar calada. Ponderou e decidiu nada
dizer.
–
Sabes… – começou o homem, sem erguer a cabeça – eu esperava muita coisa... Muita coisa. Mas
isto não. Isto, agora, definitivamente não esperava.
A
mulher, encostada ao umbral da porta da sala, ainda não se decidira a entrar na conversa quando ele recomeçou a falar, depois de se certificar, com um olhar furtivo, que ela ainda estava lá para o ouvir:
–
Não sei mas se pensei que isto nos pudesse acontecer… E pensei, reconheço.
Houve alturas em que pensei seriamente nisso. Houve tempos em que achava que tu
tinhas razões, tal como houve outros em que achei que era eu que as tinha. E
fases em que tudo se podia desmoronar e, justificadamente, terminar, não acho
que agora haja… – A voz embargou-se-lhe e levantou a cabeça para a fixar,
respirou fundo, limpou os olhos com as costas da mão direita e concluiu num
repente: – Mas agora não. Agora fui apanhado de surpresa, completamente de surpresa!
–
Foda-se, Bernardo – replicou ela, num tom só ligeiramente irritado, em que os
palavrões só sublinhavam a sua contenção e enfado. – Mas porque é que tu és
sempre tão teatral, caralho!
–
Bolas, Patrícia, sabes que eu não gosto que digas palavrões – censurou o homem.
– Evita, por favor.
–
Vai-te foder – respondeu ela. – Vai-te foder mais a tua educação de merda! Não
queres palavrões não te portes como um miúdo, não te ponhas aos saltinhos como
se estivesses a levar choques eléctricos nos colhões, como se te tivessem atado
o caralho a… a… a sei lá o quê, a uma merda qualquer que não pare, não esteja
quieta e ande para todo o lado… Se não queres palavrões, comporta-te, foda-se!
Deixa de esbracejar como uma menina, deixa de bater nas coisas e de saltar como
se tivesses molas nos pés.
–
Eu estou parado.
–
Agora – suspirou ela. – Agora estás parado. – A mulher virou costas, saiu da sala e parou depois de dar dois passos. Sem erguer a voz, lamentou-se: –
As pessoas felizes brilham, Bernardo. Brilham. Nós não. Nós estamos cada dia mais cinzentos e
baços…
Ele levantou-se e, sem sair do mesmo sítio, gritou-lhe:
–
É porque comem pirilampos!… Essas pessoas não são felizes, Patrícia, essas
pessoas comem pirilampos! São assassinos viciosos e maus! São comedores
compulsivos de pirilampos. São viciados neles e usam-nos para brilharem!… Ninguém brilha por si…
ninguém brilha por si, Patrícia… Não há pessoas felizes… ELES COMEM PIRILAMPOS!
2010
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
O Véu
No fim, acho que a lua-de-mel foi boa, muito boa e temos o véu, a mochila e milhares de fotografias de lugares onde, realmente, não estivemos, nem conhecemos, o que, provavelmente, também não faz diferença nenhuma.
terça-feira, 29 de julho de 2014
Que esteja a ferver em Cabo Verde
– Há um ano que não temos
relações – anuncia a mulher. Ao seu lado, o homem abana a cabeça, olha-me e sorri, um
sorriso bovino, sem conteúdo.
– Foi nas férias, em Porto
Santo, lembras-te? – pergunta o homem, ainda a sorrir mas com a expressão de
quem pensa nisso todos os dias.
A mulher encolhe os ombros,
olha para mim e depois para ele, com ar enjoado, e responde-lhe, displicente:
– É capaz…
– Um ano, vinte e um dias…
– diz o homem que, após uma pausa para olhar para o relógio de pulso, completa:
– Um ano, vinte e um dias e trinta e oito minutos.
A mulher torna a encolher
os ombros mas agita a cabeça, concordando com a estimativa.
– Não é uma estimativa –
corrige o homem. – É exactamente o tempo que passou desde que saí de dentro
dela.
A mulher acena a cabeça com
vigor, apoiando-o.
Respiro fundo e penso no
que dizer pois eles calaram-se e olham-me como se esperassem um comentário
qualquer. Sem saber o que dizer, repito:
– Um ano, vinte e um dias
e… – interrompo-me para olhar para o meu relógio de pulso.
– E trinta e nove minutos –
conclui o homem, com um ar de quem sabe do que está a falar.
– E trinta e nove minutos –
repito como se fizesse diferença.
– Faz diferença – censura o
homem, que se vira para a mulher e lhe pergunta: – Não achas que faz diferença?
A mulher suspira:
– Muita diferença.
– E este ano vamos de
férias para Cabo Verde – diz o homem, com um sorriso radioso, na expectativa
dos amanhãs que cantam. – O voo é agora às onze horas.
Eu abano a cabeça sem saber
o que dizer. São quase nove horas e estamos a chegar ao aeroporto.
– Só espero que não esteja
muito calor – avisa a mulher, virando-se para ele. – Sabes que eu não gosto de
foder com muito calor…
– Nem eu – diz ele, que
olha para mim e pergunta: – Ninguém gosta de o fazer com muito calor, pois não?
Abano a cabeça em silêncio
– “Acho que não” – e aproveito o sinal vermelho à entrada da Rotunda do
Relógio, que me obriga a parar o táxi, para os ver pelo espelho retrovisor: têm
cerca de trinta anos, normais e aparentemente saudáveis; a mulher é bonita mas
ligeiramente afectada e ele tem estilo, veste roupas de marca mas com um ar
excessivamente cuidado.
Cismo no “um ano, vinte e
um dias e…”, olho para o relógio no tablier, “quarenta e um minutos” e não
consigo conter a curiosidade:
– Os senhores desculpem mas
têm estado separados?
A mulher olha-me como se
nunca me tivesse visto.
O homem fulmina-me a nuca.
– O senhor taxista é muito
curioso, não acha? – Reprova o homem, cruzando o olhar com o meu no espelho. O
sinal muda, arranco e olho em frente. Ele continua no mesmo tom: – O que tem o
senhor que ver com isso?
“Nada, na verdade, não
tenho nada que ver com isso”, penso, arrependido de ter perguntado.
– Nada – reconheço. – Não
tenho nada que ver com isso. Desculpem.
Paro o táxi.
– Chegámos – informo, carregando no taxímetro.
– E o título? – Pergunta,
ácida, a mulher.
– Sim, e o título? – Apoia
o homem. – “Que esteja a ferver em Cabo Verde”?
O homem paga-me e eu dou-lhe o troco.
– O texto é meu,
o título sou eu que escolho.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Na Feira Medieval
– Ó
Seixas, tu tens a certeza que isto é boa ideia?
–
Boa ideia?!
–
Sim, achas que isto tem alguma graça?
– Ó
Araújo, porra! Isto é espectáculo, pá! Um isto faz um vistão do caraças!
–
Não sei… Acho isto tudo um bocado apertado, demasiado frágil e, ainda por cima,
cheira mal que tresanda.
–
Ah… isso! Isso foi ideia do Maia, é das peles!
– Das peles?! Desde quando é que o Cavalo de Tróia tem peles?
–
Sabes lá!
– Sei. Não tinha. Eu vi o filme.
–
Isto não é um filme, pá. Isto é a história em movimento...
– Mas o Cavalo de Tróia...
– Isto também não é o Cavalo de Tróia, pá, deixa-te de picuinhices! Nós estamos a recriar a Idade Média…
– Mas o Cavalo de Tróia...
– Isto também não é o Cavalo de Tróia, pá, deixa-te de picuinhices! Nós estamos a recriar a Idade Média…
– Eu
sei mas o princípio disto é o do Cavalo de Tróia. Ouve lá, mas as peles não são
curtidas?
–
Curtidas?
–
Secas e tratadas… Isto parece que está tudo ainda a pingar sangue e vísceras e
sei lá o quê… Está tudo húmido.
– É
para não arderem.
–
Para não arderem?!
–
Sim, o Maia diz que viu isso no Canal História. As peles dos animais antes de serem curtidas custam muito mais a arder.
–
Mas porque é que isto devia arder?
– Os
gajos podem deitar o fogo a isto.
–
Desculpa?!
– Eu
não desculpo.
– O
quê?!
–
Estou a dizer que se deitarem o fogo a isto eu não desculpo.
–
Ah… Mas alguém vai deitar o fogo a isto?!
– Os
gajos podem tentar.
–
Quais gajos?
– Os
inimigos, pá. Isto não é uma guerra?
–
Não.
–
Não?
–
Não, isto é uma recriação histórica.
–
Sim, uma recriação histórica de uma guerra medieval.
–
Essa é outra: se isto é uma guerra medieval porque raio vamos nós dentro desta
tralha?
– O
Maia diz que os gajos usavam tudo. Não te esqueças que era a idade das trevas. Os gajos eram uns manhosos do pior.
–
Isto é um carro alegórico, ó Seixas. Desde quando é que os tipos da Idade Média, por mais manhosos que fossem, usavam carros alegóricos para atacar os inimigos?
– Só
para tua informação: os gajos até usavam granadas.
–
Granadas?
–
Sim, granadas incendiárias. O Maia diz que viu no Canal História. Os gajos
usavam granadas com nafta ou lá o que era e queimavam tudo. Os antigos eram
maus como as cobras!
–
Ouve lá, achas que o Maia disse isso aos outros?
– O
quê? Que eles eram maus?
–
Não, isso das granadas com nafta.
–
Disse. E até lhes explicou que primeiro têm de mandar umas apagadas para a
nafta impregnar e só depois é que mandam uma acesa. Diz que faz um efeito do
caraças.
–
Impregnar?! Impregnar o quê?
– Eu
percebi que eram as peles.
–
Estas?! As que não ardem?
–
Pois. Só que assim já ardem. O gajo farta-se de ver o Canal História, pá. Mais
um ano ou dois e isto é uma recriação de alto lá com ela.
– E
nós?
–
Nós o quê?
–
Quando é que saímos?
–
Quando nos puserem dentro das muralhas. Já te explicaram isso.
–
Quer dizer que ninguém vai usar as granadas?
– Em
princípio, não.
– Em
princípio?!... E no fim?
–
Logo se vê. O gajo diz que isto é dinâmico, pá. Há uma certa liberdade para
desenvolvermos as personagens, para criarmos e para desenvolvermos os
acontecimentos.
– O
gajo é doido, ó Seixas… Então, e se se lembram de deitar as granadas, o que é
nós fazemos?
–
Improvisamos.
–
Improvisamos?!
–
Sim, entramos mais fundo nas personagens e actuamos em conformidade. Não nos
podemos esquecer que somos guerreiros medievais.
– Foi ele que disse isso?
– Foi.
– Foi ele que disse isso?
– Foi.
– E depois?
–
Temos de ter isso em conta.
–
Sim, mas isso quer dizer exactamente o quê?
– O
Maia diz que os tipos eram guerreiros ferozes e intrépidos, sem medo de nada,
que…
–
Que se tivessem de morrer assados dentro de uma balhana qualquer isso para eles
era uma alegria.
–
Para alguns sim, para outros não.
– Eu
sou dos outros, pá. Ficas já a saber que se me cheirar a queimado, nem que seja
a uma cabeça de fósforo a arder, vou-me logo embora.
–
´Tás doido!
–
‘Tava era se ficasse cá dentro.
– E
os arqueiros?
–
Quais arqueiros?
– Os
arqueiros inimigos, pá. Se eles te vêem a sair daqui à doida, estás feito.
–
Têm setas?
– Se
são arqueiros.
–
Pois.
– O
melhor que temos a fazer é esperar e ter confiança. Vai tudo correr bem. Os
gajos põem isto para dentro das muralhas e quando ouvirmos a senha, saímos.
– “É
uma hora e está tudo bem!”
–
Isso mesmo. É preciso é calma.
2010
quarta-feira, 2 de julho de 2014
A Palavra
"A palavra chegava-lhe aos lábios, enchia-lhe o
olhar e desabava na expressão do rosto e do corpo mas nunca era dita.
Nunca.
A palavra estava ali e era ele e ele era a
palavra mas não a dizia.
Os seus olhos, o seu rosto e o seu corpo eram o
reflexo da palavra. Um espelho era o que ele era naqueles momentos. Apenas um
espelho que reflectia uma única palavra. Uma palavra muda, sem som, sem corpo,
sem existência.
E as palavras que não se dizem não existem, nem os espelhos são o que reflectem."
A mulher calou-se, baixou a cabeça, engoliu em seco e tentou normalizar a respiração; então, quando se sentiu segura de si, olhou em frente e continuou:
E as palavras que não se dizem não existem, nem os espelhos são o que reflectem."
A mulher calou-se, baixou a cabeça, engoliu em seco e tentou normalizar a respiração; então, quando se sentiu segura de si, olhou em frente e continuou:
"Depois, depois da palavra não dita mas representada,
vinham as explicações, as justificações, as tergiversações, as promessas e as
juras. Tudo, tudo como se se abrissem as comportas de uma barragem, como se,
por milagre, o mudo ganhasse voz. Ele seria outro e a palavra que não fora dita
jamais seria necessária. Jamais!
Até que acontecia tudo outra vez e a palavra lhe chegava de novo aos
lábios, lhe enchia mais uma vez o olhar e se repetia para lhe desabar a
expressão do rosto e do corpo sem, como sempre, ser dita. Nunca foi. E era tão fácil, doutor, tão fácil.” A arguida suspirou e calou-se, correndo o olhar pelo colectivo de juízes que a julgavam. Por fim, fixou-se no
juiz-presidente e concluiu: “E o que é que lhe custava, doutor? O que é que lhe custava, nem que fosse por uma
vez, pedir desculpa?”
“Agora já não pode”, deixou escapar o
magistrado, num tom resignado e sem censura.
“Agora já não”, concordou a arguida.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
A Reconciliação
Um murro na mesa
e um “Não penses que me lixas!”, proferido em tom de ameaça, não foram
suficientes: ele lixou-a. Não o fez logo, nem sequer nos dias seguintes mas
fê-lo, fê-lo ainda em tempo útil e de forma a ser percebido.
“Tinha de ser”,
justificou o homem como quem pede desculpa mas com ar de quem o faz por mera cortesia. “As coisas são
o que são e eu não sou diferente”, concluiu, ainda que ninguém conseguisse
perceber o que queria ele dizer com isso; provavelmente, nem ele próprio.
“Ele é mesmo
assim,” comentou a mulher, com um ostensivo encolher de ombros, “não diz nada
que se aproveite…” Aqui fazia uma pausa, fazia-a sempre como se pensasse no que
ia dizer a seguir e como se o pensasse pela primeira vez naquele momento.
“Ele é mesmo
assim,” pausa com encolher de ombros, “não diz nada que se aproveite…”, pausa
com careta reflexiva; por vezes, chegava a passar a mão pelo cabelo ou pelo
queixo mas não o fazia sempre, já a careta era certa, ainda que não tivesse
qualquer conteúdo, era apenas uma representação.
Ele riu-se quando
soube disso e aproveitou para salientar essa entre enumeras características dela
que apresentava com precisão analítica e manifesto orgulho em enunciá-las. No fim repetiu um “Sempre demasiado teatral” acompanhado por uma gargalhada oca, também ele a representar mas sem ponta de ironia, que era mal que
nenhum dos dois padecia.
“Usa umas
tiradas grandiosas e grandiloquentes que, espremidas, não querem dizer nada.
Nada”, dizia a mulher depois da pausa e da careta reflexiva.
“Isso pensa ela”,
atirou o homem para pôr fim à conversa, sem cuidar de esclarecer a tal tirada
que ninguém percebera e, naturalmente, sem contestar o uso de frases orelhudas
mas sem conteúdo.
“O que é uma
frase orelhuda?”, perguntaram ambos quando leram o que o narrador escreveu.
“Frases que nos soam
bem, que nos parecem ser correctas e acertadas, que estabelecem um vínculo
entre quem as profere e quem as ouve. Que causam admiração.”
Ela fez uma
careta e ele também mas abstiveram-se de qualquer comentário.
“As caretas são o comentário”, elucidou ela, ao que ele anuiu com um lento oscilar vertical da cabeça
e um sorriso cúmplice. Ela respondeu-lhe sorrindo e piscando o olho direito.
“Devíamos falar,
Cristina”, sugeriu o homem, aproveitando o facto de ela ter os dois olhos
abertos.
A mulher aprovou
a sugestão com um silêncio grave e sério e fixou-se no narrador. “E ele?”
“Dá a narração
por terminada”, respondeu o homem, antes mesmo de ela fazer a pergunta.
“Agora?”
“Já!”
“Já!”
segunda-feira, 23 de junho de 2014
18:34
–
Provavelmente já não te direi mais nada. – Gonçalo mexeu-se na cadeira, desapoiou o queixo da mão
direita, passou os dedos em volta da boca e continuou, com um suspiro: – Também não sei o que mais te
podia dizer. – Fez uma nova pausa e concluiu: – Não sei o que te dizer, Inês,
não sei mesmo.
Gonçalo
respirou fundo e engoliu em seco, sentia uma tristeza que lhe pesava
fisicamente. Olhou em volta sem ver nada, sem a ver, atento só aos primeiros
acordes da música lenta e desconsolada que parecia envolver todo o espaço.
“Codex”, reconheceu. Não podia ouvir os Radiohead muito tempo, sabia disso. Por exemplo,
adorava “Kid A” mas quando chegava ao fim ficava normalmente num estado
lastimoso, como se o mundo não tivesse solução, nem a vida qualquer sentido.
Ouviu os mais de quatro minutos da música em silêncio e sem se mexer. Quando a música terminou, recomeçou a falar num fio de voz mas como se não se tivesse chegado a calar:
–
Eu sei que fiz tudo mal, Inês. Devia ter insistido. Devia ter-te
dito que te queria. Eu queria-te, Inês. – Gostava de ouvir o nome dela.
Precisava de dizer o nome dela. – Eu quero-te, Inês. – A ausência de nomes nas
conversas, magoavam-no. Percebia que as pessoas não fizessem por mal. Sabia que
ele próprio era capaz de falar horas sem dizer um nome mas sabia, sabia tão
bem, que, no fim, lhe ia custar perceber que não dissera nomes. Que falara como
se falasse com outra pessoa qualquer. – Provavelmente… – soltou um risinho nervoso. – Provavelmente…
– repetiu em tom sarcástico, acenando com a cabeça, censurando-se. – Quem eu é
que eu quero enganar com estes provavelmentes? As coisas são o que são e os
provavelmentes são pontos de fuga que arranjamos para não assumir todas as culpas.
Todas as responsabilidades. A probabilidade de uma coisa não ser o que nós
fizemos que ela fosse não é da nossa responsabilidade. Se, contra todas as
probabilidades, um acto ou um conjunto de actos não tem o fim que devia mas sim
um melhor do que o esperado, isso não se deve a quem os praticou, pelo
contrário, aconteceu apesar da nossa culpa.
Gonçalo calou-se e concentrou-se na música mas não a reconheceu. Não sabia o nome. Ainda eram os Radiohead e estavam a fazer-lhe mal. Isso sabia. – Provavelmente... – riu-se da palavra que, no entanto, julgava ser acertada nesta frase. – Provavelmente, esta não é a melhor banda sonora, Inês. – Levantou os olhos e viu-lhe a face inexpressiva e inescrutável. Fez uma careta para si próprio e, então, suspirou, sem querer mas sem o conseguir conter. – Desculpa – murmurou, sentindo o suspiro como uma falha.
Levantou-se da cadeira e foi até ao leitor de mp3 que alimentava as colunas de onde saía a música. “Give up the ghost”, leu e sorriu. Tornou a ler e o sorriso abriu-se mais. Virou-se para ela. – Acho que ias achar piada a esta – disse. – À situação – riu. – É um bocadinho macabro e demasiado negro mas give up the ghost é, dirias tu se não estivesses aí, se não fosses tu o ghost, a banda sonora ideal para animar as visitas.
Gonçalo calou-se e concentrou-se na música mas não a reconheceu. Não sabia o nome. Ainda eram os Radiohead e estavam a fazer-lhe mal. Isso sabia. – Provavelmente... – riu-se da palavra que, no entanto, julgava ser acertada nesta frase. – Provavelmente, esta não é a melhor banda sonora, Inês. – Levantou os olhos e viu-lhe a face inexpressiva e inescrutável. Fez uma careta para si próprio e, então, suspirou, sem querer mas sem o conseguir conter. – Desculpa – murmurou, sentindo o suspiro como uma falha.
Levantou-se da cadeira e foi até ao leitor de mp3 que alimentava as colunas de onde saía a música. “Give up the ghost”, leu e sorriu. Tornou a ler e o sorriso abriu-se mais. Virou-se para ela. – Acho que ias achar piada a esta – disse. – À situação – riu. – É um bocadinho macabro e demasiado negro mas give up the ghost é, dirias tu se não estivesses aí, se não fosses tu o ghost, a banda sonora ideal para animar as visitas.
Gonçalo
aproximou-se da cama onde jazia o corpo de Inês, tocou-lhe na mão, que o
surpreendia sempre pelo calor que emanava e pela maciez, beijou-a levemente no
rosto e despediu-se. – Até amanhã, Inês.
– Ah! – Gonçalo encostou a porta que já abrira
para sair e voltou-se para dentro do quarto. – Hoje vou pedir ao teu irmão que acrescente os Smiths ao mp3. – Riu
como se risse com ela. – Claro, Inês, o que é que havia de ser? – E saiu a
trautear: – "Girlfriend in a coma, i know, i know, it's serious."
2012
quarta-feira, 18 de junho de 2014
O Protector
Com ar
encalorado e estafado, o homem deixou-se cair no cadeirão da sala, grunhiu um
boa tarde abafado e encarou a mulher com um sorriso amarelo.
– Então, valeu a
pena? – perguntou a mulher, depois de lhe sorrir com compaixão.
O homem encolheu
os ombros, abriu os terceiro e quarto botões da camisa (os outros já estavam
abertos) e suspirou:
– Sei lá… Acho
que não.
A mulher tornou
a sorrir.
– Mas tinhas de
ir – disse a mulher, num tom tão compreensivo como o sorriso –, se não fosses
arrependias-te.
– Arrependi-me
na mesma – lamentou-se o homem, que já abrira a camisa e agora trabalhava no
cinto e no botão das calças. – Estava muito calor…
– Este ano
puseram uns tubos a deitar umas nuvens de água para refrescar… – A mulher via-o
de esguelha a despir as calças.
– Pois foi, mas
não era suficiente e não era na feira toda. – O homem levantou-se para tirar as
calças que pousou no chão ao lado do cadeirão e tirou a camisa que dobrou sem
cuidado e colocou em cima das calças. – E, ainda por cima, era nas zonas que
tinham alarmes e guardas. Parei lá pouco – concluiu o homem, aborrecido.
A mulher deu uma
gargalhada. Havia algo no marido, semi-nu, com ar afogueado a queixar-se de
alarmes e guardas que a divertiu sem que percebesse porquê. O homem fez-lhe uma
careta e mostrou-lhe a língua.
– E,
provavelmente, era onde devias ter ido mais – picou-o a mulher ainda a rir.
Em silêncio mas
concordando com a cabeça, o homem levantou-se e saiu da sala. Da cozinha gritou
se a mulher queria alguma bebida fresca. Ela respondeu-lhe que não. Quando
reentrou na sala, o homem trazia uma cerveja numa mão e vários sacos noutra.
Levantou os sacos como um troféu. Pousou a cerveja na mesa de apoio ao cadeirão
e com ar triunfante despejou os sacos cheios de livros em cima do sofá de três
lugares onde a mulher continuava sentada.
A mulher olhou
para os livros com desdém, eram mais de vinte, e perguntou com secura:
– Quantos é que
estão autografados?
– Ou sete ou
oito.
– Só?
– O resto não
interessava ao menino Jesus.
– Assim, tens
quantos autografados?
– Vinte e sete
ou vinte e oito. – O homem foi buscar a cerveja e sentou-se no cadeirão de onde
saíra.
A mulher mexia
nos livros como se estivessem contaminados, afastando-os uns dos outros apenas
o suficiente para lhes ler os títulos, fazendo caretas de desagrado ou de troça
a quase todos eles.
– Tinhas razão –
disse, virando-se para a televisão, depois de lançar o único livro que agarrara
e abrira, para confirmar se estava autografado, para cima dos outros. – Não
valeu a pena.
O homem suspirou
agastado e despejou a garrafa de uma golada. No fim, encolheu os ombros e
constatou com pesar:
– São poucos mas
entre o calor, as filas, os alarmes e os que não mereciam, foi o que se
arranjou… O que é que queres que eu te faça?
– Tens de ir
tomar banho primeiro – sussurrou a mulher, semicerrando os olhos e esboçando um
sorriso ténue.
– Eu estava a
falar dos livros.
– Eu não.
– Eu percebi.
– E?
– E, o quê?
– Vais tomar
banho?
O homem pôs as
mãos nas pernas junto aos joelhos. Baixou a cabeça e abanou-a para um lado e
para o outro. Suspirou ruidosamente. Levantou a cabeça e encarou a mulher.
Sorria. Ela estranhou-lhe o sorriso mas, olhando-o com atenção, notou um início
de erecção; ele já a tinha sentido.
– Arrumas os
livros? – Perguntou o homem, pondo-se de pé.
Satisfeita, ela
anuiu com a cabeça.
Ele foi-se
lavar.
– Pagaste algum?
– gritou a mulher, enquanto os empilhava.
– Achas?! –
berrou ofendido o homem, já debaixo do chuveiro. – Eu estou a salvar leitores,
Maria! A salvá-los dessas obras magníficas. A salvá-los de si próprios. A salvá-los
desses autores manhosos – proclamou o homem entre gargalhadas.
A mulher
encostou-se à ombreira da porta da casa de banho e disse-lhe:
– Sempre quero
ver as caras deles quando lhes devolveres os livros. Ainda por cima
autografados.
O homem fechou o
chuveiro, abriu a cabine de duche e sentenciou:
– É para
aprenderem a não escrever porcarias.
A mulher
lançou-lhe uma toalha de bidé lavada para se limpar.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
António José Seguro/António Luís Costa. A Reunião.
A porta abriu-se.
António José disse, “Entra, António, entra” e fez sinal para que ninguém o
acompanhasse.
António Luís fez
uma vénia com a cabeça, despedindo-se dos camaradas que ficavam à porta, e
entrou.
António José
levantou-se mas permaneceu atrás da secretária. Não sorria.
António Luís
entrou a sorrir e estendeu a mão quando se aproximou da secretária atrás da
qual António José parecia barricado. António Luís constatou o facto de o seu
interlocutor parecer um animal acossado. “0-1”, pensou.
António José esperou
até ao último momento socialmente aceitável para estender a mão e responder ao
cumprimento. Gostou de ver o sorriso de António Luís vacilar quando, por um
instante, duvidou que ele lhe respondesse ao cumprimento. “1-0”, contabilizou.
Quando apertaram
as mãos, ambos sorriam.
– Queres ir para
o sofá? – perguntou António José, depois dos cumprimentos e da conversa de
circunstância.
António Luís
olhou para os sofás, para a mesa de reuniões, para as cadeiras que o ladeavam
em frente à secretária que os separava e, por fim, anuiu com a cabeça.
António José
saiu de trás da secretária e com um gesto magnânimo indicou o sofá onde António
Luís se devia sentar. Sofá que tinha mandado ir buscar à arrecadação para onde
tinha sido enviado por ter molas que se espetavam em quem nele se sentava. António
José ria para dentro.
António Luís
sentou-se e sentiu de imediato as consequências.
– Leste a Guerra
dos Tronos, Tó-Zé? – perguntou António Luís, levantando-se, com cara de poucos
amigos.
– Deves querer
dizer As Crónicas de Gelo e Fogo, António, de que A Guerra dos Tronos é o
primeiro volume – corrigiu António José.
António Luís anuiu
e insistiu:
– Leste?
António José
abanou a cabeça negativamente e replicou:
– E tu?
– Também não –
admitiu António Luís, passando a mão pelo assento irregular do sofá. – Mas sei
que o Trono de Ferro, o trono dos Sete Reinos, também é como este sofá que me
deste: doloroso e traiçoeiro. Que não nos deixa estar sentados confortavelmente.
Mas – António Luís tornou a sentar-se –, ainda assim, é um trono, um trono com
tudo o que isso representa.
António José, de
pé, ouviu-o com um sorriso cínico e, quando o viu sentado com ar sofrido mas
estóico, contra-argumentou:
– E tu, qual
Tyrion Lannister, tudo farás para te sentares nele, mesmo que o trono te rasgue
as calças e as cuecas e te possa até sodomizar.
Perplexo e escandalizado,
António Luís levantou-se, bufando.
– O Tyrion
Lannister é um anão disforme e sádico…
– E parricida –
acrescentou António José.
– Mas um bom
governante – completou António Luís antes de se calar perante o ar de imbecil
superioridade com que o outro o olhava. – Parricida?! – Deixou escapar.
– Sim, o Tyrion
mata o pai, o Tywin Lannister – António José falava com displicente sobranceria
– e mata-o noutro trono, curiosamente, num que te ficava melhor, meu caro. Bem
melhor.
António Luís
engoliu em seco e, com a certeza que a referência ao trono onde a personagem
fora morta era uma armadilha, refreou a curiosidade.
– Eu não vim
aqui para falar de livros ou de séries de televisão, Tó-Zé.
– Não?
– Não.
– Tu é que
falaste na Guerra dos Tronos – retorquiu António José, impassível.
– Pois fui – António
Luís continha-se a custo, a postura e a expressão de António José estavam a
deixá-lo à beira do descontrolo. – Mas isso agora não interessa nada. Eu vim
aqui para te dizer pessoalmente que pretendo avançar para secretário-geral,
como sabes, e que pretendo que convoques um congresso com esse fim.
– Queres que eu
convoque um congresso com o fim de te entronizar? – António José abanava a
cabeça com desdém. António Luís espumava. O secretário-geral concluiu: – É
isso? É isso, não é?... Queres que eu convoque um congresso para te entregar o
trono de mão beijada. Para surfares a vaga de fundo. Achas-te uma espécie de
McNamara no canhão da Nazaré e eu… Eu sou o tipo da mota de água, o tipo que
carrega as pranchas, que te vai buscar à praia e que te deixa no sítio certo
para surfares a onda... Sim, senhor. É isto, não é? – António José estendeu a mão
a António Luís, que a agarrou. – A tua posição e pretensões estão registadas,
António. Se não for mais nada, eu tenho mais o que fazer. Até um dia destes.
Os homens
soltaram as mãos. António Luís encaminhou-se para a
saída. António José ignorou-o e voltou à secretária.
António Luís já segurava a maçaneta da porta quando se virou para trás e disse:
António Luís já segurava a maçaneta da porta quando se virou para trás e disse:
– Tu não tens o
que é preciso para surfar ondas gigantes, Tó-Zé – Rodou a maçaneta e esboçou um sorriso cínico. – Aliás, se queres saber, nem a
guiares motas de água és bom, pá. Nem isso… – Abanou a cabeça com desdém e saiu.
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