segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Escuta 231 #06.06.2006

16:55. Ela/Ele:
“Encontramo-nos lá?
Onde?
Lá!
Ah! Sim, pode ser.
À mesma hora?
Sim.
Até já, então.
Até já.
Mas vais?
Vou, se estou a dizer até já é porque vou.”
18:38. Ela/Ele:
“Está?
Olá.
Então?
Então o quê?
Não vens?
Onde?
Onde?! Então, não ficámos de nos encontrar?
Foi?! Quando?
Agora.
Onde?
Aqui.
Que horas são?
Seis e meia.
Oh! Dá-me dez minutos.
Esqueceste-te?!
De quê?... Não! Não me esqueci. Dez minutos.
Dez?
Sim, esperas?
Está bem.”
18:55. Ela/Ele:
“Está?
Sim?
É só para te dizer que me vou embora.
Está?! Está?!”
18:57. Ele/Ela:
“Está?
O que é?
A chamada caiu ou foste tu que desligaste?
Fui eu que desliguei.
Ainda aí estás?
Estou aqui. Exactamente aqui.
Espera... Espera... Estás onde?
Estou aqui.
Sim, mas onde? Não te estou a ver.
Não? Tu estás aonde?
No carro, não consigo estacionar... Mas estou aqui em frente e não te estou a ver.
É natural, eu não estou aí...
Disseste que estavas... Não disseste que estavas aqui?
E estou. Estou aqui, não estou aí. Queres estacionar?
Quero.
Então, anda duzentos metros mais para a frente.
Estou a andar... Não há lugares.
Espera... Estás a ver um Astra preto com o pisca aceso?
Estou.
Vai sair, podes estacionar.
Está bem. Até já.”
19:02. Ele/Ela:
“Está! Desculpa lá... Estás a gozar?
Porquê?
Não eras tu que ias no Astra?
Era, ou melhor, sou.
E mandaste-me estacionar?!
Não mandei, perguntei. Perguntei se querias estacionar, tu disseste que sim e eu dei-te o lugar.
Estás a brincar?
A brincar?! Porquê não conseguiste estacionar?”
19:04. Ele/Ela:
“Está?!
Sim, o que foi agora?
A chamada caiu.
A chamada?
E o telefone!
Logo vi.
Logo viste, o quê?
Que tinhas atirado o telefone ao chão do carro.
Tu estás a irritar-me!
Estou?
O que achas?
Acho que sim, pelo menos estou a tentar.
Fiz-te algum mal, foi?
O que achas?
Foda-se!
Foda-se?! Disseste foda-se?
Não era para ti! Está um polícia a mandar-me parar. Já te ligo.”
19:32. Ele/Ela:
“Ouve lá, mas tu não passaste pelo polícia?
Multou-te?
E ainda me pregou um sermão por ter o kit de mãos livres e não ir a usar.
Azar.
Mas o polícia não te viu? Tu passaste por ele.
Eu sorri.
Sorriste?
Foi.
E ele?
Ele também sorriu.
Ah… E agora onde é que estás?
Vim à esplanada.
Do careca?
Sim.
Vou aí ter.
Para quê?
Quero falar contigo.
Porquê?
Porque quero. Até já...
Até já.
Esperas?
Espero, se estou a dizer até já é porque espero.”
19:44. Ele/Ela:
“Está?
Sim?
Não esperaste.
Tive de me vir embora.
Estás a gozar.
Não tanto como tu.
Diz?!
Estou a gozar, mas não estou a gozar tanto como tu.
Eu percebi! Mas porque é isso?
Olha, Ferdinando, acho que mais vale ficarmos por aqui.
Assim, Imelda? Por telemóvel?
Sim, Richard, escusamos de nos ver.
Mas eu quero ver-te, Elisabeth. Acabar por telemóvel é para miúdos, Inês.
Oh! Pedro, acabar é acabar e pronto e tu não tens emenda, Denys George.
Denys George?!... Denys George?! Quem é o Denys George?
Perdeste?!
Se o Denys George existe, perdi.
Ah! Boa!
Mas quem é que eu te devia chamar?
Karen Christence, meu caro Mr. Hatton.
Oh, bolas!... Do África Minha! E tu eras a Karen Blixen! Apanhaste-me.
Ainda estás aí, Stan? – perguntou ela com um sorriso.
Na esplanada, Oliver?
Sim, estás?
Estou – respondeu ele, feliz.
Então espera por mim, estou mesmo a chegar.”

– Oiça lá – disse o superior, ríspido –, quando se fazem transcrições, transcreve-se.
– Não foi o que eu fiz? – perguntou o subalterno.
– Foi – respondeu o superior, alinhando as folhas –, até ela ter perguntado com um sorriso e ele ter respondido feliz.
– Ah! – O subalterno achou graça à explicação do superior e descansou, eram pormenores. – Eu acho que...
O superior que batia com as folhas na vertical na secretária, largou-as e interrompeu-o com maus modos:
– Você acha?! Ó... – O superior calou-se repentinamente, olhou para as folhas, voltou a pegar-lhe e recomeçou pausadamente: – Diga lá... Acha o quê?
Assustado, o subalterno olhou-o, viu as folhas voltarem a bater lentamente no tampo da secretária, constatou o ar interessado do superior e, ainda assim receoso, avançou:
– Acho que ela, quando lhe perguntou se ele ainda estava na esplanada deve ter sorrido. – O superior acenou ligeiramente com a cabeça, concordando, e ele continuou a explicação: – Para mais chamou-lhe Stan, Stan Laurel, o estica do Bucha e Estica...
– Eu sei quem é o Stan – interrompeu o superior. – E?
– Já não era um par romântico, mudou o princípio dos nomes, passou para uma coisa mais ligeira. Ela queria encontrar-se com ele, por isso, de certeza que sorriu.
– Estou a ver – concordou o superior. – E ele ficou feliz?
– Ficou, percebeu que a coisa se tinha resolvido. Que voltavam a falar.
– Sim, senhor. – O superior levantou-se com as folhas da transcrição na mão, rodou-as e segurou-as na horizontal. – Mas olhe, ó Sousa – rasgou-as ao meio e estendeu-lhe as duas metades –, eu até sou capaz de concordar consigo, a gaja deve ter sorrido e o gajo deve ter ficado todo contente – o subalterno pegou nas folhas rasgadas – mas, a verdade, é que aqui só transcrevemos, não romanceamos, ouviu?!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O Parvo

Apesar de não desviar o olhar do recheio do decote que, graciosamente, a mulher lhe colocara à frente, o homem pôs um ar de sofrimento atroz e, num tom despreocupado que não casava com a cara de desvalido que ostentava com esforçado empenho, informou:
– Não há nada a fazer, querida, não tenho cheta.
Sentindo uma repentina fúria a tomar conta de si, a mulher semicerrou os olhos, mordeu o lábio inferior, inspirou pelo nariz e engoliu em seco para se controlar: o “querida” arranhara-a mas a desarmonia entre a expressão do homem e a frase e o tom em que ele a dissera doeu-lhe como uma bofetada. A “querida” conteve-se, respirou fundo, abstraiu-se do ar aparvalhado com que ele ainda rebolava os olhos nas suas mamas, e perguntou docemente:
– Tens mesmo a certeza que não queres?
O homem queria mas não podia ou podia mas não queria, ele próprio não sabia bem, mas, aparte isso, tinha a certeza da negativa, isso era certo e definitivo, apesar de estar maravilhado com o recheio do decote que lhe ocupava todo o campo de visão, de estar entusiasmado por ter uma mulher pendurada no seu colo e de estar a sentir uma forte pulsão primitiva que procurava justificar e tornar aceitável a rendição a um dos mais básicos ensinamentos cristãos. “Ainda que eu não me fosse multiplicar…”, riu-se o homem para si.
– Tens a certeza que não há nada a fazer? – Insistiu a mulher, em tom menos doce mas ainda agradável.
O homem levantou a cabeça e olhou-lhe para o rosto mas, no meio dos seus pensamentos, dúvidas e certezas, decidiu não vocalizar a resposta, não lhe dirigir a palavra e ser duplamente afirmativo e desagradável, acenando com a cabeça para baixo e para cima ("tenho a certeza que não há nada a fazer!") enquanto encolhia os ombros ("e não me interessas, nem quero saber das tuas expectativas ou acho que mereças que responda com a mesma educação e simpatia com que me estás a tratar"); o que, deu-se conta disso naquele momento, não conseguia fazer ao mesmo tempo.
– Não consigo – disse o homem, perplexo, sem parar de tentar conjugar os movimentos da cabeça e dos ombros, o que lhe saía cada vez mais ridículo e grotesco.
Pasmada, a mulher olhava para o bizarro espectáculo que o homem dava sem saber se havia de rir ou de chorar, se havia de se levantar e fugir ou dar-lhe um estalo e ajudá-lo a recompor-se do que lhe parecia um ataque qualquer.
– És parvo ou quê? – rosnou, por fim, a mulher, sem se mexer, cansada da noite que ainda não começara, farta dos clientes que ainda não tivera, desesperada com as escolhas que fizera na vida e que agora a faziam estar ali, ao colo de um louco furioso, sem dinheiro nem respeito por quem tenta trabalhar.
O homem, assustado com a fixidez penetrante do olhar dela, que achou ter relevância penal se ficasse registado, desistiu, ainda que contrariado, de tentar acenar com a cabeça e encolher os ombros ao mesmo tempo e manteve-se calado e quieto à espera do que ela faria ou diria a seguir. Mas a mulher não fez nem disse nada e acabou por distrair-se, desviando o olhar de forma natural, sem antipatia ou ressentimento, o que deu ao homem um suplemento de parvoíce e mania que se materializou no tom ríspido, antipático e com a barba por fazer com que lhe disse que estava aborrecido por não conseguir mostrar-lhe de duas formas o desinteresse nela e na pergunta que ela lhe fizera.
– Queria abanar a cabeça e encolher os ombros ao mesmo tempo mas não consigo – concluiu, como se isso é que fosse importante.
– Afinal, não és só parvo – A mulher suspirou profunda e ruidosamente e terminou com um esgar de asco que não a favorecia: – És parvo e mal educado e desagradável.
– Porquê, tu consegues? – Perguntou o homem que, na realidade, não a tinha ouvido, julgando tão-só que ela o estava a depreciar por não conseguir coordenar os movimentos que queria.
A mulher esticou-se, pôs os pés no chão (era pequena), levantou-se, saiu do colo do homem, baixou o mais que conseguiu a curta mini-saia que quase trazia vestida, e, abanando a cabeça na horizontal e fazendo ao mesmo tempo toda a espécie de movimentos com os ombros, com a boca e com os olhos sublinhando o seu desagrado e aborrecimento, comentou, sem que o fizesse particularmente para o homem que retomara as tentativas de abanar a cabeça e encolher os ombros:
– Se não querem por que é que nos deixam avançar? Porque é que não dizem nada e, pelo contrário, – a mulher fez uma pausa nas vírgulas que o homem, sem perceber porquê, apreciou – põe-se com conversas como se fossem alguma coisa de jeito e  ainda nos chamam queridas e lindas e…
– Eu não te chamei linda – corrigiu o homem, julgando que ela estava a falar com ele.
A mulher tornou a suspirar:
– Estás-me a chamar feia, é?!... Era só mesmo o que faltava...
Atrapalhado, o homem engoliu em seco, abanou a cabeça sem mexer os ombros (o que fazia com naturalidade) e, pensando ainda que ela falava com ele, que ela falava a sério, que ela ainda sabia que ele existia, justificou-se:
– Não, estou só a dizer que não te chamei linda, só te chamei querida.
O homem acabou a frase a olhar-lhe para os bicudos e brilhantes sapatos vermelhos de salto muito alto, que se viraram e se afastaram num silêncio estrondoso, o que lhe pareceu muito indelicado e rude da parte dela.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Periferia

Júlia fixou-se nos olhos de Marco e disse-lhe:
- Entre aquilo que dissemos e o que ficou por dizer, podia escrever-se um livro.
Marco cerrou os lábios, abanou resignadamente a cabeça, concordando, e perguntou:
- Não é sempre assim?
- Não sei - respondeu Júlia, levantando os ombros. - É provável que sim. Há sempre coisas que não se conseguem dizer, outras que achamos não valer a pena serem ditas e outras que não queremos dizer.
Marco afastou o seu olhar do dela e olhou em volta, para as outras mesas da esplanada mas não pensou em nada, nem, na realidade, viu o que quer que fosse, precisava apenas de se afastar dos olhos dela, de deixar de sentir que estava a ser lido, que ela o estava a perceber mais do que ele se percebia a si próprio. Quando voltou a olhar para ela, Júlia olhava para o tampo da mesa, absorta nos seus pensamentos. Marco esperou uns segundos e, depois, disse num sussurro quase inaudível:
- Também há coisas que não sabemos dizer. - Júlia levantou a cabeça e tornou a fixá-lo, Marco continuou no mesmo tom: - E há coisas que não dizemos no tempo certo e por muito que nos martirizem, pelo menos durante um tempo - relativizou, achando que estava a ser sério demais -, acabamos por nunca dizer.
- É?
Marco acenou com a cabeça que era, voltando a cerrar os lábios como a dizer que não só era como era evidente que sim.
- Houve coisas que não me disseste... - Júlia parou para se lembrar da frase exacta e adaptando-a, recomeçou: - Houve coisas que não me disseste no tempo certo e que, apesar de te martirizarem, acabaste por nunca me dizer?
- Tu não?
- Que me lembre, não. - Júlia baixou os olhos para um ponto indefinido da mesa e, após um momento, corrigiu: - Não, de certeza que não. Ainda por cima se ficasse a pensar nisso, a martirizar-me - sorriu com a palavra -, a martirizar-me por não te dizer, dizia-o. Tu não? - Júlia repetiu a pergunta que ele lhe fizera, bem sabendo que não: não só porque ele lhe dissera mas porque, conhecendo-o, sabia que quanto mais o tempo passasse, com martirização ou não, menos ele o diria.
- Eu não - reconheceu Marco que, sem se querer alongar por esse caminho, voltou ao inicio desta parte da conversa. - Achas que o que ficou por dizer dava para escrever um livro?
Júlia mantinha o sorriso que lhe surgira com o “martirizar-me”, ainda que na maior parte do tempo, o sorriso permanecesse confinado aos lábios, não alastrasse a qualquer outro elemento do seu rosto, como se simplesmente se tivesse esquecido que estava a sorrir.
- Acho mais do que isso... -  Júlia engasgou-se nas palavras e o sorriso triste, infrutífero, desalentado em que a frase se esgotou deu lugar a um sorriso maroto, quase infantil, com que recomeçou a falar: - Eu não disse isso. Eu disse mais do que isso: disse que o que dava para escrever um livro foi o que está entre aquilo que dissemos e o que ficou por dizer; não foi só com o que ficou por dizer. O que ficou por dizer também dava para escrever um livro, se calhar maior, mais completo, mais volumoso, mas... - Júlia sorria com todo o rosto e com um particular brilho nos olhos - mas, de certeza, de certeza mesmo, não teria nem metade do interesse do livro que tivesse tudo o que está entre aquilo que dissemos e o que ficou por dizer.
Em fundo, das colunas presas à parede da pastelaria, começaram ambos a ouvir uma musica que reconheceram: Periphery de Fiona Apple.
- É por isso que gosto de vir aqui - disse Júlia, referindo-se à musica, a olhar para as colunas e, subitamente, levantou a mão direita para chamar o empregado, a quem, como se escrevesse no ar, pediu a conta. Olhou para Marco, que lhe devolveu um olhar interrogativo, e anunciou-lhe: - Tenho de me ir embora.
- Já? - repetiu Marco o que os seus olhos já haviam dito.
Júlia acenou com a cabeça.
- Agora.
Marco olhou para o relógio.
- Não é por causa das horas… - Júlia hesitou e emendou: - Não é só por causa das horas, é que esta é a banda sonora perfeita para terminarmos esta conversa. Não quero ouvir mais nada.
O empregado aproximou-se com a conta e perguntou:
- É junta?
Julia levantou-se, ficou entre a mesa e a cadeira, olhou para Marco, que lhe devolveu um olhar em que ela não encontrou qualquer significado, e, ainda a sorrir, o tal sorriso esquecido, disse:
- A conta é.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Take a walk

A mulher mergulhou a colher na sopa e disse:
– Há uma universidade no Japão em que as mesas da cantina têm um separador no meio para que as pessoas que estão frente a frente nas mesas não se vejam. – O homem olhou para ela e arqueou as sobrancelhas: “E eu com isso?”. A mulher, antes de levar uma colher cheia de sopa à boca e engoli-la, esclareceu: – Se calhar era o que nós precisávamos. Uma mesa “forever alone”.
O homem pousou os cotovelos na mesa, juntou as mãos sobre o prato vazio, unindo as pontas dos dedos, levou as pontas dos indicadores à ponta do nariz e, no fim, olhando para a ponta da colher, perguntou, levantando a hirsuta sobrancelha esquerda (a direita, menos peluda, era mais recatada):
– O que é isso?!
A mulher, que mantinha a cabeça levantada como se estudasse o tecto, levou a mão direita à boca, onde introduziu o indicador e o polegar e puxou lentamente a colher, que reapareceu intacta mas vazia.
– Há quem o faça com espadas – disse a mulher.
O homem pensou que havia quem o fizesse com outras coisas mas não o disse, ao mesmo tempo que se imaginava como objecto daquele súbito e inesperado talento da mulher.
– Sabes o que era de valor? – Perguntou o homem, com maus modos, aborrecido por ter a certeza de que nunca estaria envolvido naquele número. A mulher, que voltara a introduzir parte da colher na sopa, acenou com a cabeça negativamente. O homem disse: – Que a colher viesse cheia quando saísse.
A mulher, procurando reter a resposta que lhe apetecia dar mas que não pretendia emitir, mordeu o lábio inferior e fixou-se no prato de sopa. O homem levantou-se, pegou no seu prato vazio, que não chegara a utilizar, e devolveu-o ao móvel da cozinha onde estavam os copos, o que fazia diariamente para afrontar a mulher.
– E a mesa? – perguntou a mulher.
– A mesa?
– Sim, a mesa “forever alone”.
– Nós não precisamos de uma mesa dessas – respondeu o homem. – Já comemos os dois a olhar para a parede.
– Tu não comes – disse a mulher.
– Às vezes, como – replicou o homem, num tom que insinuava um outro sentido para o verbo.
A mulher riu para si.
– Já ouviste uma música dos Passion Pit?
– Quem?
– Um grupo, Passion Pit.
– Não conheço.
– Take a walk.
– Take a walk?
– Sim, Take a walk. É o que deves fazer.
– Ah!
– Mas antes tiras o prato do sítio dos copos.
O homem, sorrindo satisfeito porque o seu acto fazia efeito, retorquiu:
– Tira tu os copos do sítio do meu prato.
A mulher levantou-se, pegou no seu prato de sopa vazio, com a colher lá dentro, olhou para o homem e explicou:
– Sabes, quando eu comecei a treinar o truque da colher fi-lo para outros fins. A minha ideia não era enfiar colheres pela garganta abaixo. – A mulher pousou o prato no lava-loiças. – Fi-lo para ti, ou melhor, fi-lo com o propósito de o vir a fazer contigo… – A mulher fez uma pausa e emendou, com um sorriso resignado e triste: – Fi-lo com o propósito de o vir a fazer em ti.
Junto à porta do móvel da cozinha onde estavam os copos arrumados e o seu prato desarrumado, o homem ouvia imóvel e em silêncio, sem saber o que responder.
A mulher aproximou-se dele e pediu-lhe licença com um gesto. Ele afastou-se.
– Mas isso nunca vai acontecer – continuou a mulher, abrindo a porta de onde estavam os copos e o prato. Tornou a sorrir, um sorriso ainda resignado mas menos triste. – Ou, pelo menos, não vai acontecer contigo.
O homem sentiu a frase como um murro na barriga, que lhe doeu fisicamente, que o fez encolher num acto reflexo e ficar mesmo com falta de ar.
A mulher viu-o encolher-se ligeiramente mas isso não lhe interessava e, certa do que queria fazer, ergueu o braço, esticou os dedos da mão que enfiou entre os copos e a madeira do móvel, pôs os dedos num ângulo de quase 90º em relação à palma da mão e puxou a mão e o braço para si evitando o prato em que não tocou e trouxe todos os copos de uma vez até ao fim da prateleira do móvel, fazendo com que se estatelassem com estrondo no chão da cozinha. Então, anunciou, com expressão de dever cumprido:
– Já tirei os copos do sítio do teu prato. – A mulher sorria enquanto saía da cozinha, com cuidado, evitando os pedaços maiores dos vidros e, junto à porta do apartamento, disse: – Vou fazer uma caminhada. A walk.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

12:55


Avançou para o espelho e observou-se. Cuidadoso, estudou os pormenores e, então, ajeitou ligeiramente o nó da gravata, alisou os colarinhos da camisa como se precisassem, conferiu a perfeita esquadria do risco do cabelo e o rigor milimétrico da barba aparada, passou a língua pelos lábios, humedecendo-os, e experimentou o seu melhor sorriso, verificando se se transmitia aos olhos ou se ficava pelos lábios. Queria sorrir completamente. Desejava do mais fundo de si que o sorriso se reflectisse em toda a sua expressão, em todo o seu ser; que todo ele desse a entender a alegria com que a via.
Satisfeito, fechou a porta do roupeiro onde estava o espelho e vestiu as calças, engomadas e vincadas com minuciosos cuidados, que tirou de um cabide de pé em madeira, que lhe guardava com formalismos de velho mordomo as calças, o casaco e, sobre um estrado de cinco finas ripas, os sapatos, lustrosos e brilhantes.
Enfiou a camisa nas calças e constatou a certeza com que fizera o nó da gravata, cuja ponta tocava ligeiramente no cinto. “A medida perfeita”, vangloriou-se. Alisou suavemente as pernas das calças junto aos bolsos, certificando-se, cautelosamente, que aqueles estavam completamente estendidos e não provocavam quaisquer inestéticas rugas visíveis.
Baixou-se para pegar nos sapatos, tão formais como o cabide, pegou na calçadeira de prata que se encontrava sobre a mesa-de-cabeceira e sentou-se no sofá junto à cama para se calçar. Ajeitou-se, prevenindo a formação de vincos, e dobrou-se para iniciar a operação.
Em pé, sem recorrer ao espelho, tornou a conferir o perfeito alinhamento e bem posta rigidez das calças, da camisa e da gravata. Não sorriu mas, sentindo-se pronto e animado, esfregou as mãos uma na outra.
– Boa tarde – disse, para ouvir a sua própria voz, para a modular, para lhe ajustar o volume. – Boa tarde – repetiu, fazendo uma pequena vénia com a cabeça. – Boa tarde – voltou a dizer, enquanto desmiolava o casaco, separando-o do elegante cabide de ombros largos, bisando a vénia a que acrescentou o sorriso que treinara ao espelho. – Boa tarde.
Vestiu o casaco, sem levantar os braços, fechou o primeiro e segundo botões, deixando o terceiro propositadamente fora da sua casa, e abriu a porta do meio do roupeiro, para uma última análise ao espelho.
– Boa tarde – ensaiou, pela última vez, com uma subtil e delicada vénia e um sorriso discreto mas luminoso.
Fechou a porta do roupeiro com um suspiro, apesar de tudo receoso, e caminhou batendo os pés, tanto para os aquecer como para afastar o sentimento incómodo de dúvida que lhe embaciava o olhar, condicionava a postura e lhe toldaria a voz se permanecesse.
Olhou para o relógio: 12:55.
“Está na hora” pensou, sentindo formar-se um nó na garganta. Engoliu em seco. Ajeitou a franja com a mão esquerda. Passou a mesma mão pela barba como se a conseguisse alisar, aprimorou o nó da gravata e, confiante, dirigiu-se à porta da rua, passando pela cozinha. Seguiu um trajecto repetido diariamente, com passos certos, contados e cronometrados, sem pausas, até parar junto da porta da rua, que não abriu, à espera.
Ouviu a carrinha subir o passeio e imobilizar-se, depois uma porta abrir e fechar-se. Não evitou um sorriso ligeiro quando reconheceu o som dos passos, curtos e rápidos mas elegantemente compassados, dirigindo-se primeiro até à porta traseira da carrinha, que ouviu abrir e, depois, aproximando-se da sua porta. Ergueu as sobrancelhas num tique nervoso e abriu a porta.
Olharam-se, ela sorria radiosamente, tal como ele antevira, e ele abriu o seu sorriso, já não o ensaiado mas o espontâneo, que lhe rejuvenescia a face, a expressão, o corpo. Compenetrado, fez a sua ligeira vénia enquanto a cumprimentava com o seu mais caloroso tom de voz que, por mais que tentasse, nunca conseguiria repetir em frente ao espelho:
– Boa tarde, menina.
– Boa tarde, senhor Faria – respondeu ela. – Não sei como é que arranja isso mas o senhor está cada dia mais bonito.
Ele sorriu como um menino tímido, agradeceu com nova vénia e passou-lhe o estojo com as três marmitas vazias recebendo em troca as cheias com a sopa, o almoço e o jantar.
– Até amanhã, senhor Faria. – A funcionária que distribuía as refeições ao domicílio piscou-lhe o olho. – Amanhã à mesma hora, não se esqueça.
– Doze e cinquenta e cinco!
– Nem mais. Até amanhã!
– Até amanhã, menina.
11/2/2008

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Selvagens

Com a desenvoltura dos actos diariamente repetidos, Aníbal atou mecanicamente o atilho das calças de pijama brancas e azuis às riscas verticais, deixando os dois laços perfeitamente simétricos. Satisfeito, sentou-se na cama para descalçar os chinelos, que alinhou perfeitamente entre si, com a cama e com a mesa-de-cabeceira. Olhou o relógio na mesa da cabeceira com apreensão, agarrou-0 com decisão e deslocou-o ligeiramente sobre o tampo da mesa-de-cabeceira até o colocar exactamente onde queria e pousou-o aí. Pôs-se de pé, levantou o lençol, tendo o cuidado de não destapar a mulher, sorriu-lhe e deitou-se. Deitado de barriga para cima, com as mãos juntas e arrumadas em cima do peito, Aníbal desejou boa noite a Maria, suspirou e fechou os olhos pronto para dormir.
Maria, que lhe respondera ao sorriso com um esgar inclassificável e ao “boa noite” com um resmungo, ficou calada sentindo a pressão crescer dentro de si, esperando, sem preferência, que ela se desvanecesse ou que explodisse. Explodiu:
– Boa noite?! – Maria sentou-se na cama como se se tivesse accionado uma mola na base da sua coluna vertebral. – Boa noite, Aníbal?!
Os olhos de Aníbal, escondidos pelas pálpebras que não abriu, moveram-se para a direita e para esquerda enquanto tentava adivinhar a razão da mulher. Sem ideias, engoliu em seco, abriu os olhos e sorriu com o seu ar mais inocente. Lembrou-se do bolo-rei que uma vez usara como desculpa para não falar e teve pena que não pudesse ser Natal todos os dias.
Se o olhar causasse danos indemnizáveis, o de Maria custar-lhe-ia muito caro e Aníbal ficaria com massa para poder comer bolo-rei até ao fim da vida.
– O que foi? – Inquiriu Aníbal, procurando na televisão uma pista para a fúria quase assassina da mulher, sem resultados. Num instante ponderou várias hipóteses: ela não tinha gostado nada do discurso; e ainda menos da solução que ele apresentou – “Qual solução, Aníbal? Achas que isto é alguma solução?!”, dissera-lhe quando ele lhe confidenciara o que pensava fazer –; nem da viagem às Selvagens; nem de ser quarta-feira e estarmos todos na mesma; nem…
– O que foi?! – Repetiu Maria, abanando a cabeça e mostrando-lhe uma careta de profunda desilusão.
– Foi o Portas? – Aníbal arriscou. – Fez mais alguma?
– Qual Portas, qual carapuça – disparou Maria, furiosa. – Foste tu!
– Eu?! O que é que eu fiz?
– Pouco – Maria deu uma gargalhada – ou nada mesmo, ainda que estranhamente esteja a resultar.
Aníbal olhava-a perplexo à espera de ser elucidado, sabendo que o "pouco ou nada" tinha que ver com o seu discurso mas que não era disso que ela o acusava agora. O “pouco ou nada mesmo” fora só uma farpa para o irritar. “A questão principal é outra”, suspirou Aníbal, à espera que a mulher acabasse de achar graça à sua própria piada, distraindo-se a olhar para as suas mãos ainda arrumadas sobre o peito e para os seus os braços nus, envelhecidos e secos de carnes.
– Ah! – sussurrou Aníbal. Então, levantou o tronco e fitou a mulher nos olhos. Descobrira. Maria parou de rir e encarou-o, ligeiramente divertida. Com ar sério e grave, Aníbal baixou a cabeça fixando-se na camisola branca de cavas e, depois, virou-a lentamente para o braço direito e para o braço esquerdo sinalizando a falta de mangas. Qualquer tipo de mangas. Então, ainda sério e grave mas forçando-se a um certo ar de inconsequente rebeldia, Aníbal levantou a cabeça e tornou a cruzar o olhar com o de Maria.
– É a camisola, não é? – Perguntou Aníbal, prolongando a interrogação com um longo suspiro. Maria confirmou com um simples aceno de cabeça. – Estamos na Madeira, Maria – justificou Aníbal.
Maria encolheu os ombros: – Não estamos em Boliqueime, pois não?
Aníbal cerrou os lábios e expirou ruidosamente pelo nariz, levantou-se e foi tirar a camisola de alças e vestir o casaco de pijama.
– E vamos às Selvagens – disse Maria, enquanto o marido abotoava o pijama. Ele olhou para ela, que concluiu, sorridente: – Vamos às Selvagens, Aníbal, ainda não vamos para selvagens.
Devidamente trajado, Aníbal tornou a deitar-se.
Antes de apagar a luz, Maria sorriu-lhe, desejou-lhe “Boa noite, senhor Presidente” e deu-lhe um beijo na boca.